O ESTADO DE S.PAULO – 03/09/2020
A ilustradora Rita Rosenmayer, uma das artistas que mais ilustrou obras para o Suplemento Literário do Estadão, morreu no sábado, 29, de causas naturais, aos 91 anos. Filha de ucranianos e nascida no Rio de Janeiro em 1928, Rosenmayer atuou intensamente ilustrando para jornais e livros, principalmente dos anos 1950 aos anos 1990.
No Estadão, ela colaborou com o Suplemento Feminino, mas sua principal contribuição foi para o Suplemento Literário, lendária publicação de literatura criada por Antonio Candido em 1956 e que circulou aos sábados até 1974.
Sua primeira contribuição com o jornal foi em 1958, e ela seria a mais frequente colaboradora a ilustrar as páginas do Suplemento nos anos seguintes, produzindo 66 desenhos para o caderno.
Seu primeiro trabalho impresso foi publicado em 16 de agosto de 1958 e difere muito de seus trabalhos posteriores no caderno, segundo avalia Ana Cândida Franceschini de Avelar Fernandes, na dissertação de mestrado Artistas Plásticos no Suplemento Literário de ‘O Estado de S. Paulo’ (1956-1967), defendida na USP. A obra mostra formas alongadas que remetem a árvores de galhos desfolhados, em um agrupamento semelhante a uma floresta.
“A descontinuidade das linhas, muito provavelmente, se deve ao processo de impressão incapaz de reproduzir linhas leves, demonstrando, talvez, uma falta de intimidade da artista com o meio gráfico ao optar por esse tipo de linguagem, fato que se transformará ao longo de sua atuação como ilustradora do Suplemento”, escreve.
Segundo ela, o maior grupo de desenhos que marcam o estilo de Rita, na maioria das vezes retratando ternamente figuras femininas, pode ser exemplificado na ilustração de Colóquio em Torno de uma Rosa, conto de Bruna Becherucci, publicado em 1961. “Nela, além da figura de uma rosa, estão duas figuras femininas: a primeira, vista de frente, com apenas os olhos e boca delineados, guarda a cabeça entre as mãos; a outra, de uma perspectiva mais comum nesses trabalhos, de costas (às vezes, as figuras aparecem também vistas de cima).”
Mesmo após o fim do Suplemento Literário, Rosenmayer continuaria criando ilustrações para o jornal até 1991. Em 1984, por exemplo, ela ilustrou uma edição natalina de Cultura. Em uma entrevista em 2004, a artista afirmou nunca ter feito uma ilustração explicativa a respeito dos livros analisados no jornal. “Se a poesia já está contando o caso, não preciso explicar de novo”, afirmou Rosenmayer.
De acordo com Arnoldo Seincman, filho de Rosenmayer, entre seus livros favoritos estavam os clássicos da literatura russa que os pais dela trouxeram da Ucrânia; a autora ucraniana-brasileira Clarice Lispector; e diversos livros franceses.
Além de seu traço fino e elegante, como o de Hergé, Sempé e outros grandes ilustradores, Rosenmayer também atuou como pintora.