O GLOBO – 19/02/2020
ALEX MARSHALL
No sábado à noite, surgiu a notícia de que Caroline Flack — ex-apresentadora do “Love Island” —havia se matado. Em poucas horas, as mídias sociais na Grã-Bretanha foram inundadas com homenagens à artista, que morreu enquanto aguardava julgamento por agredir o namorado. Mas os tributos logo ganharam um tom de protesto, com fãs pedindo a criação de uma nova lei inspirada no caso Flack para impedir que os tabloides britânicos publiquem histórias que mergulham na vida privada das celebridades.
Flack era tema recorrente dos jornais sensacionalistas do Reino Unido, desde o sucesso como estrela de TV infantil, até os romances com o príncipe Harry e o cantor Harry Styles, entre outros. Por isso, muitos acusaram os veículos de prejudicar sua saúde mental. Com a hashtag #carolineslaw, surgiu uma petição online propondo uma lei que impeça os tabloides de “compartilhar informações privadas que sejam prejudiciais à uma celebridade, sua saúde mental ou as pessoas ao seu redor”. Logo superou as 400 mil assinaturas.
Políticos também entraram na discussão. Keir Starmer, favorito ao posto de líder do Partido Trabalhista, acusou os jornais de ampliar comentários negativos das mídias sociais. Para ele, a imprensa “tem que assumir sua responsabilidade”.
Nada desse debate apareceu nos tabloides em si. “The Sun”, veículo mais criticado nesse caso, dedicou sete páginas à morte da atriz. Em sua capa, criticou o Ministério Público Britânico por “perseguir a frágil Caroline Flack”, forçando-a a ir a julgamento. As autoridades prosseguiram com a acusação, apesar de saberem que Flack havia machucado a si própria durante o suposto ataque, disse o “Sun”. No ano passado, o jornal fez uma ampla cobertura do caso, apelidando-a de “Caroline Whack” — algo como “Caroline Paulada”.
O rancor em torno dessa cobertura é o caso mais recente envolvendo os tabloides britânicos. A discussão surge poucas semanas após Meghan Markle e o príncipe Harry ameaçarem processar vários deles por fotos invasivas. O casal já se queixou repetidamente sobre a invasão da imprensa em suas vidas. Mas especialistas em mídia não acreditam que os pedidos pela Lei Caroline sejam mais bem-sucedidos do que as campanhas anteriores para fortalecer as leis de privacidade na Grã-Bretanha. Eles também não esperam que a campanha diminua o interesse do público britânico por essas histórias, que tendem a ser populares nas redes sociais.
— Essa é uma daquelas grandes hipocrisias do público britânico, que se entrega à leitura e, muitas vezes, a comentários sobre essas celebridades e, quando as coisas dão errado, se voltam contra a mídia e dizem que é tudo culpa dela — diz Roy Greenslade, colunista do “Guardian”.
Greenslade já trabalhou no “The Sun” e também foi editor do “Daily Mirror”, outro tabloide.
APETITE POR FOFOCAS
Greenslade diz que mora metade do tempo na Irlanda e sente por lá “menos apetite” por fofocas de celebridades. Ele tem essa mesma percepção em outros países europeus, como França e Noruega. As fofocas existem em outros lugares, admite, mas não tem tanto espaço na imprensa considerada séria, como no caso dos tabloides britânicos.
Adrian Bingham, historiador que escreveu um livro sobre a imprensa britânica, diz que o foco dos jornais locais na vida das pessoas surgiu nos anos 1930, enquanto as publicações competiam pela audiência:
—As pessoas faziam de tudo na época. Se pudessem hackear telefones na década de 1930, teriam feito isso.
Ele não espera que nada surja a partir dos pedidos por uma Lei Caroline. A morte da princesa Diana, enquanto era perseguida por jornalistas, “não levou a nada significativo” em torno da regulamentação da imprensa, lembra. Flack não era uma celebridade tão grande, e os jornais já estavam usando suas plataformas para culpar outras pessoas, como o Ministério Público ou os produtores de “Love Island”, acrescenta.
Na segunda-feira, a capa do “Daily Mail” dizia que Flack temia um “julgamento midiático”. No mesmo jornal, um artigo de opinião dizia que Flack havia sido “julgada e condenada pelo tribunal impiedoso da mídia social”. O “Daily Star”, outro tabloide, concentrou sua cobertura contra a ITV, que transmite “Love Island”, com fãs questionando se a emissora deu apoio suficiente depois que ela deixou o programa após o caso de agressão.
— Os tabloides a mataram? — questiona David Yelland, ex-editor do “Sun” e vice-editor do “New York Post”. — Acho que, hoje, os jornais populares são apenas uma parte do ecossistema tóxico com o qual os famosos têm de lidar. As mídias sociais e os tabloides se retroalimentam de uma maneira que cria um inferno para as celebridades no lugar errado e na hora errada. Parece estar piorando e não há respostas fáceis.
UMA VIDA NOS TABLOIDES
Flack teve uma ascensão típica de subcelebridade na Grã-Bretanha, surgindo na televisão infantil antes de se envolver em reality shows populares como “Sou uma celebridade… me tire daqui”. Em 2014, ganhou o
“Strictly come dancing”, um dos programas mais populares da TV britânica, e no ano seguinte se tornou a apresentadora do “Love Island”. O programa provocou um debate sobre a ética dos reality shows, após os suicídios de três ex-concorrentes. Sua última temporada não transmitiu os episódios de sábado e domingo após a morte de Flack.
Ao longo de sua vida, ela sempre esteve nas páginas dos tabloides. Na segundafeira, o “Sun” publicou um artigo de duas páginas destacando como os altos de sua carreira “coincidiram com momentos muito baixos na vida pessoal”. Em seguida, listou seus romances fracassados, crises de depressão e uso de antidepressivos. “Num padrão muitas vezes repetido, sua carreira decolou enquanto sua vida pessoal estava em frangalhos”, afirma a matéria.
Em outubro passado, por volta do Dia Mundial da Saúde Mental, Flack postou no Instagram sobre suas dificuldades recentes: “Nas últimas semanas, vivi momentos muito estranhos. Acho que é ansiedade e pressão, e quando procurei ajuda, disseram que eu estava sendo deprê. Seja legal com as pessoas. Você nunca sabe o que está acontecendo. Nunca”.
Greenslade diz que leu a mensagem e achou que era “um apelo sensível”, ao qual ele dava todo o apoio. Mas, acrescenta, “se você é uma celebridade e depende de sua imagem na mídia para fazer sua fama e, portanto, gerar sua renda, é muito difícil fechar a torneira”.