O GLOBO – 02/01/2020

EDITORIAL

Chamou pouca atenção a multa de R$ 6,6 milhões dada pelo Ministério da Justiça ao Facebook, devido ao compartilhamento de informações de brasileiros. Deve ter contribuído para isso o fato de a notícia ter sido divulgada na semana do réveillon e a cifra nada significar para uma das maiores plataformas digitais, que captura perfis de bilhões de pessoas. Porém, esta multa, lavrada em uma investigação em andamento, é parte da mais escandalosa invasão de privacidade já feita na era da internet, com a intenção, bem-sucedida, de manipular eleitores.


O caso tem no seu centro, além do Facebook, a empresa de consultoria política Cambridge Analytica, à qual a rede forneceu um amontanha de informações pessoais colhidas a partir de um aparentemente inofensivo teste (quiz) sobre a “vida digital”.

Desenvolvido por um professor da Universidade britânica de Cambridge, Aleksandr Kogan, o aplicativo teve a adesão de 270 mil internautas. Por meio deles, o mecanismo capturou informações pessoais de 87 milhões de usuários do Facebook.

Foi tudo repassa dopara a Cambridge Analytica, que, por meio de sofisticadas ferramentais digitais, identificou pessoas susceptíveis a determinadas mensagens: contra imigrantes, de teor ultranacionalista etc. Elas passaram a ser bombardeadas por informações fakes, e foi assim que votos decisivos terminaram sendo conquistados na

Grã-Bretanha para que o projeto do Brexit, a saída da União Europeia, ganhasse o plebiscito de 2016 pela estreita margem de quatro pontos percentuais (52% a 48%).

A mesma manipulação digital foi feita na eleição de Trump nos Estados Unidos, também em 2016, quando ele perdeu na votação popular, mas ganhou em distritos-chave que lhe concederam os votos necessários para se eleger no colégio eleitoral.

Não é coincidência que Steve Bannon, ideólogo de extrema-direita assessor de Trump na campanha e durante pouco tempo na Casa Branca, tenha atuado na Cambridge Analytica. Bannon tem ligações com a família Bolsonaro. Falta esclarecer o uso das informações sobre os brasileiros.