O ESTADO DE S.PAULO – 09/08/2020
• Quando as redações ficam menores e menos conteúdo jornalístico é produzido, qual o impacto social disso?
Há uma perda da capacidade instalada do jornalismo como instância de mediação da sociedade. Isso não quer dizer que o jornalismo perdeu intensidade. Hoje, nas redes, o que mais repercute é o que é produzido pela imprensa profissional. Com a perda de capacidade de produção, em termos de volume, alguns setores podem ficar mal cobertos. A perda relativa de poder de mediação não vem só da redução da capacidade produtiva. Também vem dessa iniciativa dos governadores, propiciada pelas redes, de se comunicar diretamente e desqualificar a imprensa tradicional. Ao se deparar com uma reportagem investigativa, a atitude republicana de um governante é reconhecer aquilo como importante. Mas muitas vezes o jornalismo profissional é desqualificado nessa comunicação direta, que chamo de populismo digital.
• Essa comunicação direta incentiva ataques à imprensa?
Sim. A comunicação direta como ferramental político não é novidade. No passado havia comícios, caminhadas. O que ocorre é que as redes sociais deram a esse contato direto um volume de massa, e, em paralelo, os artifícios computacionais para forjar a repercussão desse contato direto, que são robôs, disparos automáticos. Uma claque digital forjada. É uma subversão em relação ao que a imprensa faz ao definir a relevância de um assunto. No mundo digital se tenta definir relevância ao se forjar um clamor.
• Há sites que tentam imitar o formato de conteúdos jornalísticos, mas sem seguir preceitos de apuração, checagem. Como o público pode diferenciá-los?
No livro, proponho uma maneira de definir jornalismo com base em atitude, método e narrativa. A atitude é a curiosidade do jornalista. O método passa por organizar o trabalho, colocar o assunto dentro de um contexto, ver como as fontes estão relacionadas. E a narrativa é a transformação disso em algo palatável e didático, de modo a contar a história de forma acessível e dando voz a todos os lados. As notícias fraudadas ou fake news se apropriam do formato sem considerar o método. Os fraudadores mimetizam o formato, tentam se apropriar da aparência, porque o jornalismo tem credibilidade. / D.B.