O GLOBO – 26/02/2020

RAFAEL GARCIA 

O Brasil tem hoje sua maior incidência de sarampo desde 1997, e o mundo tem a maior desde 2005. Por quê?


Esta é a questão de um milhão de dólares. O sarampo, por ser epidêmico, tem anos com alta transmissão e anos com baixa. Dito isso, nós nunca vimos algo assim, porque é um aumento sustentado, nunca visto. Os dados provisórios mostram 516 mil casos confirmados em 2019, que não incluem ainda a epidemia na República Democrática do Congo. O número final de 2019 pode fechar entre 700 mil e 800 mil casos. Em 2018, foram 353 mil, que já eram o dobro do ano anterior. São aumentos substanciais.

Há algo novo acontecendo, que está ligado à maior interconectividade do planeta. Todos os países, até os que têm regras sanitárias rígidas, sofrem pressão porque seus próprios cidadãos têm voltado de países onde há muita circulação da doença, e recebem repetidas importações de sarampo.

Quanto disso se deve ao movimento antivacina e à desinformação, e quanto é falha de políticas públicas?

A vasta maioria se deve a falhas nos programas de saúde pública. Não há dúvida de que há algum grau de desinformação sobre a vacinação e algum grau de recusa, que está sendo exacerbado pelo movimento antivacina, mas ele é apenas parte do problema que estamos enfrentando. É difícil para programas de saúde identificar onde há núcleos de indivíduos que não são alcançados. É preciso que agentes de saúde façam um trabalho de campo e tornem a vacinação facilmente acessível.

Que países conseguiram combater essa reemergência do sarampo? Há exemplos?

Há países que têm programas de alto desempenho, mas sofrem muitas importações do vírus e têm de reagir rápido. É o caso da Colômbia, que, assim como o Brasil, sofreu muita pressão migratória na fronteira com a Venezuela nos últimos três anos. Os colombianos merecem crédito pela proatividade e prontidão com que identificaram casos de sarampo e levaram vacina rápido aonde era necessário, inclusive para os venezuelanos. São um exemplo fantástico de sucesso.

Países desenvolvidos também sofrem isso. Os EUA têm alta cobertura vacinal, mas há agora um surto em Rockland, perto de Nova York, onde a cobertura vacinal era baixa porque resistiram à vacinação por razões religiosas. As autoridades de saúde identificaram os obstáculos daquela comunidade específica e aumentaram a taxa de vacinação ali.

Faz sentido exigir vacina de turistas e migrantes?

Isso é muito debatido entre meus colegas da OMS. Nos países que exigem comprovante de vacina contra febre amarela, por exemplo, há preocupação com falsificação de documentos, e a maior parte das pessoas mais velhas não tem mais documentação de sua vacinação para sarampo. Há muitos problemas administrativos para se atingir isso.

Em lugares com grandes concentrações de pessoas, porém, como no Haj (peregrinação para Meca), isso já tem sido feito. Para eventos planejados com antecedência, onde há grande concentração de indivíduos e um risco relativamente alto, pode ser considerado.

Alguns países estão implementando ou estudando tornar a vacinação obrigatória. Isso tem funcionado?

Esse é um tópico complicado. Nós não temos uma recomendação endossando vacinação obrigatória. A evidência de eficácia é ambígua. Há lugares que estão implementando vacinação obrigatória para ingresso em escolas, o que me parece uma abordagem mais razoável.

Eu creio que a vacinação obrigatória de fato aumenta a cobertura vacinal no curto prazo, mas, no final das contas, nós queremos que as pessoas se vacinem porque sabem que é para o bem delas e da comunidade delas. Não queremos fazer algo que provoque resistência, falsificação ou tentativas de subverter o requerimento legal. De qualquer forma, a OMS não prescreve recomendação específica relacionada a esse assunto.

Qual é a mensagem prioritária nos esforços de comunicação da OMS onde ocorrem surtos?

A mensagem simples é que a vacinação salva vidas. A vacina do sarampo é extremamente segura, e recomendamos a todos que tomem pelo menos duas doses. Se você não tiver certeza se tomou, você pode tomar uma dose adicional. Não é a recomendação oficial que se tome mais de duas doses de vacina, mas não há problema em receber uma segunda dose. Não existe motivo para não se vacinar.