O GLOBO – 03/02/2020

RICARDO GANDOUR

Para onde caminham as instituições dedicadas a apoiar a formulação de políticas públicas? Conhecidos como think tanks (TT), esses organismos apareceram no cenário mundial há cerca de 90 anos. Independentes ou ligados a governos, universidades e mesmo ao setor privado, constroem pontes entre a academia, a sociedade civil e o Estado.

Por meio de pesquisa e fomento ao debate, ajudam os poderes a formular políticas e a sociedade a ter acesso à discussão de forma didática e transparente, como reza a definição do TTCSP, sigla em inglês para Programa para os Think Tanks e a Sociedade Civil da Universidade da Pensilvânia (EUA), meca do assunto e que publica anualmente rankings dos TT mais destacados por país, objeto de estudo ou tipo de patrocínio. Nas principais listas o Brasil emplaca nomes como a Fundação Getulio Vargas (FGV), o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), a Fundação Fernando Henrique Cardoso (FFHC) e o Núcleo de Estudos da Violência, entre outros.


Num mundo polarizado e com retrocessos terraplanistas, são muitos os desafios que essas organizações têm pela frente. Foi para debater esse futuro que a Escola de Administração Pública (Enap), criada em 1986 a partir de um estudo do então embaixador Sergio Paulo Rouanet e hoje ligada ao Ministério da Economia, reuniu em Brasília em seminário na quinta-feira passada especialistas do Brasil e do mundo.

Ao me preparar para mediar um dos painéis, deparei-me com duas questões. Think tank, em termos literais, pode ser lido como “reservatório de pensamento”. A noção de reservatório nos leva à imagem de que um conjunto de ideias há que ficar represado pelo tempo necessário para a adequada análise e para a reflexão com a profundidade que o assunto merece — e que um reservatório permite. Na era da fragmentação e da hiperconexão digital, é produtivo revisitar essa definição. O próprio conceito de reservatório nos remete à paragem das águas, ao remanso, à contenção para que consensos se estabeleçam antes de virarem políticas públicas. Mas como dar conta de um processo dessa natureza enquanto agentes públicos —por vezes ministros — tuítam a cada hora, atirando pra todos os lados, testando e recuando conceitos que mexem com o destino de toda a população? Não foi à toa que no seminário da Enap falou-se num formato “expresso” — pesquisas rápidas para, num prazo de semanas, embasar decisões de impacto público.

O próprio TTCSP recomenda que os think tanks busquem maior agilidade.

Outro desafio reside na natureza essencial e clássica de qualquer processo de pesquisa: a virtude da dúvida e do acolhimento de hipóteses antagônicas. Pelo mundo todo, governos conservadores e autointitulados “de direita” —definição em geral imprecisa e insuficiente—têm grande afeição pelas certezas, ou pelo menos pelos atalhos rápidos para as certezas. Logo após a eleição de Donald Trump, relatório do TTCSP anotou “em muitos países, ambientes crescentemente hostis a think tanks e ONGs”. O documento relembrou que os novos líderes são “devotos das redes sociais”, “carismáticos” e elencou fatores que fazem com que, “num mar de insegurança, políticos populistas tuítem soluções simples para problemas complexos”.

Num epílogo de perspectiva otimista, o TTCSP conclama as entidades a se adaptarem às novas dinâmicas, adotarem novos formatos e também usarem as redes sociais. “São tempos turbulentos”, reforçam os pesquisadores. Para o Brasil, que em comparação com EUA e Europa ainda engatinha na categoria dos think tanks, o alerta não poderia ser mais oportuno.