O ESTADO DE S.PAULO – 29/08/2020

 
Crítico de arte fala sobre Luiz Carlos Mesquita em artigo publicado originalmente no ‘Jornal da Tarde’ de 9 de setembro de 1970

ARNALDO PEDROSO D’HORTA

Como na mais besta das mágicas, ele nos foi subtraído quando se encontrava ao alcance de nossos braços e o olhávamos de olhos bem abertos, atentamente. O sentimento em que ficamos é de que fomos todos ludibriados, estupidamente confundidos enquanto se operava o golpe de escamoteação do amigo precioso. E como foi possível que assim nos deixássemos embair, e que ele na verdade se estivesse esvaindo, no mesmo momento em que pensávamos estar acompanhando a sua recuperação?

Ele mesmo conduziu o espetáculo. Recebia os que o visitavam como se os visitantes é que estivessem necessitando de conforto e atenção – que ele a cada um dispensava. Brincava.

Fazia com que o enfermeiro se transformasse em garçom e providenciasse o aperitivo. Sabia distinguir a cada um, com a sua nobreza toda especial: deitado na cama, engessado da ponta do pé à cintura, forçado a uma rigidez de postura que tornava o leito um instrumento de permanente tortura, fazia sala para todos, como numa autêntica recepção. E a cada um perguntava pelos amigos comuns, interessava-se pelos respectivos problemas mas, chegava mesmo a encaminhar providências que interessavam a terceiros, no mundo lá fora.

Depois dos primeiros dias não se queixava mais, sequer, de dor na perna fraturada. Era apenas indiretamente que vínhamos a saber que na verdade dormia pouco e mal, que a flatulência o incomodava, que a imobilidade lhe tirava o apetite. Mas a sua capacidade de resistência às dores físicas e morais – não quis ser anestesiado no momento em que os ossos quebrados deviam ser repostos no lugar, suportando a frio esses minutos infindáveis – mantinha os que se reuniam à sua volta na ilusão de que o tratamento seguia normalmente.

Era uma evidência contra outra evidência, pois efetivamente emagrecera, e nos últimos 15 dias o rosto mostrava sinais indudíveis de abatimento. Mas tinha junto a si, 24 horas por dia, enfermeiros que ele soubera, como sempre, transformar em amigos, e periodicamente era submetido aos exames devidos, e visitavam-no os médicos que dele cuidavam. E, entretanto, no centro do círculo dos olhares carinhosos que o cercavam, ele verdadeiramente se estava dissipando, e por isso, repentinamente, perplexos, afrontados e incrédulos, fomos atirados contra o fato brutal de que ele já não era. Carlão passara.

Êle conduziu o espetáculo, com a elegância de que nunca se departiu, com a superioridade que sempre foi a sua marca. Nós não víamos o seu corpo sob o lençol, mas ele sentia-o, e sabia. E disfarçava. Mantinha sempre diante de nossos olhos a cortina de fumaça de sua bonomia, de sua paciência sem intervalo, de sua atenção às pessoas, às palavras e aos problemas alheios. Como se o seu fosse um problema já resolvido. E eis que era.

O que há de escandaloso, de insensato, de inadmissível nessa morte, é que, como se fosse uma outra qualquer, diante dela temos que comportar-nos como em face de qualquer outra notícia de que uma vida qualquer deixou um qualquer outro corpo. E isso não é verdade, isso é uma terrível mentira.

Ele sempre aparentou brincar com a vida, essa era a sua maneira de afugentar o convencionalismo. Sua incompatibilidade com o formalismo era visceral, e, sem embargo disso, ninguém mais refinadamente delicado, ninguém mais percuciente para apanhar, num relance, a existência, num circunstante, de uma qualquer preocupação íntima. Sua desinibição, de palavras, de gestos, de comportamento, não se fazia ofensiva, porque era desde iogo evidente que ele todo era um imenso poço de inocência. Forrado de uma sensibilidade em carne viva, que o fazia sentir como uma ferroada a menor desatenção, tinha, entretanto, uma invulgar capacidade de sofrer sozinho, extrovertido em comentários divertidos sobre a situação. Sua maneira de falar era sua maneira de caiar os problemas que mais o preocupavam, e embora muitos o conhecessem assim, desde há muito tempo, ainda desta vez ele soube esconder-nos o que lá por dentro se estava passando. Pois, que ele o sabia – isso já estava no seu olhar de despedida, quatro dias antes da crise final.

Tinha uma espécie de senso de premunição, que lhe permitia, com a maior segurança, avaliar imediatamente cada pessoa. Debaixo de sua aparente imprudência havia um firme juízo sobre as mais diversas situações – numa palavra ou num gesto ele era capaz de resumir todo um relatório. Estava sempre a par do que se passava por perto e ao longe, embora os menos avisados pudessem supô-lo desatento ou desinteressado.

Mas não gostava de mostrar-se, nem queria competir com ninguém, e por isso reservara-se um comportamento capaz de desarvorar quem pretendesse reduzi-lo aos termos comuns. Um dos truques pelos quais costumava encobrir a afetividade que o ligava às pessoas, era dar a cada uma delas um apelido, e, quando não as alcunhava, crismava-as de outro nome, que ficava sendo o nome da relação exclusiva. Com o outro, e especialmente a outra, e tal era o seu modo gracioso de afirmar a posse afetiva – uma nominação de uso singular.

Como não escondesse as próprias – que, ao contrário, ridicularizando, acentuava – tinha inalterável compreensão pelas fraquezas alheias, numa disposição para perdoar, uma incapacidade para odiar, uma tal agilidade em fingir de bobo, que muita gente supunha o estar enganando. Ele permanecia atento, algumas vezes sofria com isso, mas não desfazia o equívoco.

Enquanto nos iludíamos com o que era uma demonstração de incomum força moral – que no caso confundíamos com resistência física – ele sabia, ainda desta vez, o que estava acontecendo. Na última oportunidade em que o vimos, e enquanto conversava com um grupo de pessoas postadas do outro lado do quarto, deu-nos um olhar de relance, pôs a mão direita para fora da cama, e apontou com o polegar para baixo.