O ESTADO DE S.PAULO
THE NEW YORK TIMES
App de mensagens entrou na mira do governo dos EUA junto com o TikTok, mas tem mais poder que a rede social de vídeos.
Pouco depois da eleição de 2016 nos EUA, Joanne Li percebeu que o aplicativo que a conectava a outros imigrantes chineses a tinha desligado da realidade. Tudo que ela via no WeChat indicava que Donald Trump era um líder admirado. Ela achou que era um consenso. “Mas então comecei a conversar com pessoas que não eram chinesas a respeito dele”, disse ela, que morava em Toronto na época. “Fiquei muito confusa.”
Ela começou a ler mais fontes de notícias e começou a se dar conta que o WeChat estava repleto de fofocas, teorias da conspiração e mentiras. A chinesa também questionou o que era dito a respeito de seu país no app, mas percebeu que não tinha opção além de suportar os defeitos. Criado para ser “tudo para todos”, o WeChat é indispensável para um chinês.
Para a maioria dos chineses na China, o WeChat é uma espécie de canivete suíço digital: permite compartilhar histórias, conversar com antigos colegas,
pagar contas, coordenar ações com os colegas de trabalho, publicar imagens das férias dignas de inveja, fazer compras e receber notícias. Para imigrantes, é ainda a ponte que os liga ao lar.
Entrelaçado a tudo isso, estão a vigilância e a propaganda do Partido Comunista Chinês. Conforme o WeChat se tornou onipresente, o app virou uma ferramenta das autoridades chinesas para orientar e policiar o que as pessoas dizem, com quem conversam e o que leem.
Como um dos alicerces do estado de vigilância da China, o WeChat é considerado uma ameaça à segurança nacional nos EUA. O governo Trump baniu de seu país o WeChat, bem como a rede social TikTok. Da noite para o dia, duas das maiores inovações chinesas da internet ampliaram o impasse tecnológico entre China e EUA. Ainda que os dois apps tenham sido misturados pelo governo Trump, eles têm abordagens distintas para a “muralha eletrônica” que bloqueia o acesso chinês aos sites do exterior.
Voltado aos jovens, o TikTok foi pensado para o mundo selvagem fora da censura da China; existe apenas fora das fronteiras do país. Já o WeChat não: ele é uma única rede social abrangendo toda a muralha eletrônica da China. Nesse sentido, ajudou a levar a censura chinesa ao restante do mundo. Por outro lado, sua proibição interromperia milhões de conversas entre parentes e amigos.
Liberdade?
Joanne sentiu o estalo do chicote do controle chinês sobre a internet quando voltou à China em 2018. Após viver no exterior, ela buscou equilibrar suas fontes de informação. Na pandemia, publicou no WeChat um artigo sobre as relações entre China e Canadá – mas o texto teria sido censurado no país. No dia seguinte, policiais foram à sua casa. “Minha mãe ficou aterrorizada”, disse.
Os policiais levaram Joanne, seu celular e computador até a delegacia local. Ela teve as pernas amarradas enquanto era interrogada. Segundo ela, um oficial chegou até a insistir que havia proteção à liberdade de expressão na China enquanto a interrogava.
“Não disse nada”, respondeu. “Só pensei, como será essa liberdade de expressão? Será a liberdade de arrastar para a delegacia para sucessivas madrugadas de interrogatórios?”. Finalmente, a polícia a obrigou a escrever uma confissão e jurar lealdade à China antes de soltála.