O ESTADO DE S.PAULO E O GLOBO- 06/03/2020
PEDRO DORIA
Uma ameaça ronda a empresa Twitter. E ela pode ter impacto que vai além da gestão de uma companhia. Se um determinado grupo de investidores tiver sucesso em sua ofensiva, o impacto pode resvalar até para a política. Inclusive a do Brasil.
Nos últimos anos, em grande parte por conta do impacto da eleição presidencial americana de 2016, o Facebook recuou do tema política. Diminuiu sua importância via algoritmos, fez de tudo para se afastar do debate. Some a isso o fato de que o presidente americano, Donald
Trump, passou o mandato se comunicando via Twitter e, assim, atraiu copiadores como nosso Jair Bolsonaro. É, e já há muito tempo, a rede favorita de jornalistas e cientistas políticos. O resultado é que boa parte do debate público ocorre lá. Com qualidade declinante, mas é lá.
O fundo de investimentos Elliott Management comprou US$ 1 bilhão em ações da empresa Twitter. A quantia não lhe garante controle, mas dá voz alta. E este novo acionista tem uma meta: preencher com pessoas de confiança as quatro cadeiras do conselho administrativo do Twitter que ficarão vagas este ano. Da meta partem para o objetivo final: tirar Jack Dorsey do cargo de CEO.
A notícia, revelada pela agência Bloomberg, segue a lógica do mercado de capitais. Dorsey é um caso atípico: o único CEO de, simultaneamente, duas empresas que valem mais de US$ 1 bilhão. Ele comanda também a Square, que trabalha com serviços de pagamento. A companhia, argumentam os analistas da Elliott, precisa de um CEO que se dedique integralmente a ela. Se isto ocorrer, seu valor subirá no mercado e as ações compradas darão retorno.
Há também uma crítica mais específica. Diferentemente do gigante das redes, Facebook, e da outra concorrente relevante, a Snap, o Twitter não vem investindo em inovações. Esta semana anunciou seu Stories, uma invenção do Snapchat copiada por Instagram, Face e WhatsApp, que chega com anos de atraso à rede do passarinho azul.
Muitos fundos funcionam assim: encontram no mercado uma empresa que, consideram, valem menos do que deveriam. Aí constroem uma teoria sobre o que as faz valer menos. Compram papéis o suficiente para ganhar voz, trabalham para atacar o que consideram ser o problema, fazem o lucro. Jogo jogado.
Só que é preciso desconfiar. A Elliott pertence a Paul Elliott Singer, um ativo financiador do Partido Republicano. Inicialmente, ele esteve no grupo antiDonald Trump. Mas, desde então, isto se atenuou. Não dá para dizer que Singer seja um fiel seguidor de Trump. Mas segue republicano e não votaria em um democrata jamais. Ele não contribui apenas com dinheiro para o partido e candidatos com quem simpatiza. Financia também causas que lhe são caras. E, aí, está um ponto delicado.
É inevitável comparar Jack Dorsey a
Mark Zuckerberg. A atitude de Zuck perante as muitas controvérsias a respeito das redes é escorregar e evitar o confronto, empacotar um argumento formal e repeti-lo. Dorsey faz o oposto: responde diretamente, com clareza, não foge. Mas a transparência no diálogo não vem sendo acompanhada por ações reais. Jack prometeu em março de 2018 uma mudança no algoritmo para estimular conversas que não sejam o caos destrutivo do diálogo que impera hoje. É uma mudança fundamental. Mas, até este março de 2020, nada ocorreu.
É perfeitamente possível que o movimento de Singer nada tenha a ver com política. Que seja, apenas, uma típica ação de um fundo agressivo, que não é rara em Wall Street. Mas, se ele virou acionista da rede onde ocorre a conversa política e tem planos para isso, então há um risco. Um risco particularmente delicado.