O GLOBO – 05/02/2020

BERNARDO MELLO FRANCO

Fabio Wajngarten é um homem de negócios. Há três semanas, ele convocou a imprensa para explicar como ficou rico. Disse ter largado uma carreira promissora na advocacia para atendera um pedido do empresário Sílvio Santos.


“Ele queria que eu gravasse as propagandas que eram veiculadas numa emissora concorrente”, contou. “Comprei um videocassete, um caderno, edomeu quarto eu gravava essa emissora de televisão ”, prosseguiu, descrevendo o serviço como “pioneiro” e “inovador”.

Em 2017, o publicitário farejou outra oportunidade. No início da campanha presidencial, ele notou o crescimento de Jair Bolsonaro e se ofereceu para aproximá-lo do empresariado paulista. Desta vez, disse não ter buscado vantagens financeiras.

“Fiquei apaixonado por ele, pelo discurso da ética, pela humildade, pela sinceridade”, derramou-se. O convite para chefiara Secretaria de Comunicação Social da Presidência teria surgido“por uma razão do destino, ao contrário do que muitos dizem”, acrescentou, sem que ninguém tivesse perguntado.

Em janeiro, a “Folha de S.Paulo” mostrou que os negócios particulares de Wajngarten passaram a se misturar com sua atuação pública. Uma de suas empresas recebe dinheiro de emissoras e agências contratadas pela Secom para fazer propaganda do governo.

É um caso típico de conflito de interesses, em que o mesmo personagem atua dos dois lados do balcão. Mesmo assim, Bolsonaro saiu em defesa do auxiliar. “Se for ilegal, a gente vê lá na frente”, desconversou. Wajngarten entrou na mira do TCU e da Comissão de Ética da Presidência, mas continuou a bater ponto no Planalto.

Ontem a situação do secretário se complicou. A Polícia Federal abriu inquérito para apurar se ele cometeu os crimes de corrupção passiva, peculato (desvio de verba pública) e advocacia administrativa.

Sob investigação, Wajngarten deve se dizer cada vez mais “apaixonado” pelo chefe. Só a paixão justificaria a prática de outros atos que afrontam a lei, como o uso de canais oficiais da Secom para atacar uma cineasta que fez críticas ao presidente.

Os negócios do secretário Wajngarten se misturam com sua atuação no governo. É um caso típico de conflito de interesses, em que o mesmo personagem atua dos dois lados do balcão