Simpatizantes do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, invadiram na última terça-feira (3) a missa de corpo presente do poeta Ernesto Cardenal, referência da poesia ibero-americana e figura-chave da Teologia da Libertação, na Catedral Metropolitana de Manágua. Mais de uma centena de mulheres e homens uniformizados com lenços vermelhos e pretos (as cores da Frente Sandinista) chamaram o morto e quem o acompanhou de “traidores” e depois intimidaram personalidades como a escritora Gioconda Belli, além de agredirem cinco jornalistas que cobriam a celebração, informou o jornal El País. As agressões são apenas mais um capítulo da repressão do governo às liberdades de imprensa e de expressão ao longo dos quatorze anos nos quais Ortega permanece no poder. Entidades internacionais condenaram a violência.

O poeta Ernesto Cardenal morreu no domingo (1º) passado, aos 95 anos, de causas naturais associadas à idade avançada. Era um dos críticos mais duros do atual governo de Ortega – de quem foi apoiador no período da Revolução Sandinista –, destaca o El País, razão pela qual o regime orquestrou uma perseguição política contra ele durante os últimos anos. Após a morte do poeta, a presidência decretou luto nacional por três dias, e a própria vice-presidente Rosario Murillo, esposa de Ortega, deixou de lado as desavenças recentes e elogiou Cardenal na segunda-feira (2). Mas a trégua durou pouco, até velório.

Na ocasião, cinco jornalistas foram agredidos, entre eles repórteres do La Prensa e outros sites noticiosos. O mais afetado foi o jornalista Hans Lawrence, da publicação Nicaragua Investiga. Ele tentou se proteger na casa eclesiástica da catedral, mas os simpatizantes do governo arrombaram os portões e continuaram a surrá-lo. Lawrence foi levado a um hospital de Manágua vomitando sangue, mas os médicos conseguiram estabilizá-lo.

Nesta quinta-feira (5), a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) condenou as agressões contra jornalistas e, também, a atitude violenta de simpatizantes do governo Ortega esta semana. Christopher Barnes, presidente da entidade, disse que a violência ocorrida durante o funeral de Cardenal “é uma evidência a mais de que a ditadura nicaraguense segue determinada a impedir a liberdade de imprensa”. A SIP destacou que permanece a censura televisiva contra o 100% Noticias os programas independentes Esta Semana e Esta Noche. Lembrou ainda que o governo manteve por mais de um ano o bloqueio aduaneiro dos insumos usados para a impressão do diário La Prensa. O mesmo ocorreu com o El Nuevo Diario, que acabou fechando sua operação em setembro de 2019. 

Leia mais em:

https://www.sipiapa.org/notas/1213700-condena-la-sip-agresiones-contra-periodistas-nicaragua

https://confidencial.com.ni/ni-en-su-despedida-hubo-tregua/

https://elpais.com/internacional/2020-03-03/ortega-despliega-fuerzas-policiales-en-el-velatorio-del-poeta-nicaraguense-ernesto-cardenal.html