O ESTADO DE S.PAULO – 05/07/2020

Bruno Capelas

Durante muito tempo, o LinkedIn foi uma rede social de Schroedinger: tal qual o gato dentro da caixa na teoria do físico austríaco, ele era e não era uma rede social. Havia gente cadastrada, mas a maioria das pessoas usava o site só para procurar emprego, sem grandes interações. Recentemente, isso mudou: em um processo que evoluiu gradualmente nos últimos anos e se intensificou na pandemia, o serviço que pertence à Microsoft desde 2017 virou um lugar de conversas sobre carreira, trabalho e negócios para uma multidão – só no Brasil, são 43 milhões de usuários ativos.


“Temos cerca de 100 mil usuários novos por semana”, afirma Milton Beck, diretor da empresa na América Latina. Além dos novos cadastros, a interação cresceu bastante – segundo a empresa, houve aumento de 55% no volume de conversas entre março e o mesmo mês de 2019. Já o volume de conteúdo publicado em junho subiu 50%, na relação ano contra ano.

Para Fabro Steibel, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS-Rio), a explicação para o crescimento é evidente. “Todas as redes sociais, de forma geral, ganharam mais atenção. E num período de incerteza econômica, quem está preocupado com o trabalho vai para o LinkedIn”, afirma.

Essa popularidade em meio à quarentena é, porém, o ápice de um movimento que já vinha acontecendo nos últimos anos. Para Luiz Peres Neto, professor da ESPM, o LinkedIn ganhou espaço na internet graças a um movimento de flexibilização das relações de trabalho, após a crises de 2008. “Isso faz com que as pessoas tenham de estar sempre numa vitrine, buscando uma vaga, se promovendo”, afirma (leia entrevista abaixo).

Conexões. Lançado em maio de 2003, o LinkedIn demorou a ganhar tração como rede social. “No começo, o LinkedIn era usado bastante por profissionais de recrutamento, para contratações”, lembra Beck. A demora para lançar ferramentas de criação de publicações de texto, foto ou vídeo, porém, acabou sendo positiva: para analistas, a plataforma aprendeu com os erros de outras redes, criando um algoritmo que valoriza menos a polêmica e mais o diálogo. A impossibilidade de um usuário pagar para promover seu conteúdo também tornou o espaço mais democrático.

É algo que aparece no discurso até mesmo dos influenciadores da rede. “Eu tenho 225 mil conexões hoje. Não gosto da palavra seguidores porque parece que estou num patamar diferente. Sou igual a todo mundo”, afirma o empresário Rodrigo Garçonne, um dos perfis mais populares da rede no País. No lugar de memes e selfies, ele publica textos sobre carreiras, negócios e equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. “O LinkedIn não é uma rede pessoal, mas às vezes falo sobre minha relação com a família para gerar reflexões nas pessoas”, diz.

A própria rede promove, todos os anos, uma lista de “pessoas a serem seguidas”, os Top Voices. Especialista em conteúdos sobre startups, inovação e empreendedorismo, a mineira Amanda Graciano foi uma dessas vozes no ano passado. Para ela, a rede se tornou um espaço de dividir o que vive no dia a dia, trabalhando no setor. “Quando você fala em startups, há muitos termos em inglês, isso afasta as pessoas. Busco explicar meu trabalho de uma forma sem que ele pareça mirabolante”, afirma. “Para mim, não tem muita separação entre o pessoal e o profissional na rede, mas o foco é no segundo.”

Casual, mas focado. Dono de uma rede de 520 mil seguidores, o jornalista André Forastieri concorda que a rede é profissional, mas não é sisuda. “Você não precisa estar ali de terno e gravata, mas precisa ser coerente com a imagem que quer passar”, afirma. Com uma carreira dedicada à cobertura de temas como tecnologia, cultura e arte, ele descobriu na rede social um espaço para falar de política, economia e negócios.

Acabou virando negócio: hoje, Forastieri também presta consultoria para quem quer aprender a usar a plataforma. “Quem está no LinkedIn busca coisas úteis. Por isso, é uma rede que não serve para quem quer causar ou lacrar”, diz.

Para analistas, o LinkedIn virou um lugar à parte nas redes sociais. “O Facebook virou tóxico e velho. O Instagram não tem texto, só imagem, então é difícil para conversar. O Twitter é muito opinativo, então o LinkedIn virou a opção. E ali não entra política, até porque ele tem esse ambiente corporativo”, afirma Steibel, do ITS-Rio.

A ausência de polarização é ao mesmo tempo causa e consequência: comprado pela Microsoft em 2017, o LinkedIn hoje tem múltiplas fontes de receita além da publicidade – como a venda de cursos e a assinatura de um serviço para usuários que queiram mais informação sobre os contatos na rede – incluindo quem visitou seu perfil.

No último ano, a rede faturou US$ 6,8 bilhões. É pouco perto do que o Facebook arrecada (US$ 17 bilhões só em um trimestre), mas o LinkedIn é só uma peça numa grande estratégia. “As ferramentas da Microsoft sempre foram sobre produtividade: escrever, calcular, apresentar, conectar equipes. A sinergia com o LinkedIn é enorme”, diz Steibel.

De quebra, ao não precisar usar o engajamento como moeda de troca para faturar, a rede soube manter debates positivos, evitando armadilhas de outras redes sociais – como a relativa tolerância com tendências de polarização e discursos de ódio. “Nós temos mecanismo contra desinformação, assédio, mas os próprios usuários nos ajudam a mostrar para o que a rede serve ou não”, diz Beck.

É uma lógica interessante: se as redes sociais replicam ambientes e situações da vida cotidiana, o LinkedIn funciona como o corredor da firma ou a sala do café. Mesmo informal, ali há códigos e condutas adequadas.

E num mundo em que se discute a possibilidade do trabalho presencial deixar de existir, uma rede como essas pode ganhar ainda mais força. “O distanciamento social, mesmo que reduzido, veio para ficar”, aposta Garçonne. “E como você vai manter a convivência social se está afastado? As redes estão aqui.”