O ESTADO DE S.PAULO – 19/04/2020

Bruno Romani

Brittany Kaiser, ex-funcionária da Cambridge Analytica, consultoria que ajudou a eleger Donald Trump, diz ao Estado que deveríamos receber por uso de dados pessoais. Ela é autora do livro Manipulados.


A americana Brittany Kaiser, de 34 anos, já teve alguns motivos para lamentar a eleição de Donald Trump à presidência dos EUA. O maior deles até aqui? A postura de Trump no combate à crise do novo coronavírus.

Mas o arrependimento dela não é só de quem “votou errado”. É de quem ajudou Trump a chegar à Casa Branca. Ela foi um dos principais nomes por trás da Cambridge Analytica (CA), firma de marketing político que prestou serviço para a campanha do republicano e causou a principal crise da história do Facebook.

Em março de 2018, uma reportagem do jornal The Observer revelou que a empresa roubou os dados de 87 milhões de pessoas na rede social para influenciar resultados das eleições no País. Enquanto o caso fervia, Brittany, que também trabalhou nas campanhas de Barack Obama, se tornou delatora e passou a colaborar com autoridades britânicas e americanas. A história está no livro Manipulados, lançado no fim de 2019 no País. Com a autoridade de quem viu como funciona as entranhas da indústria de dados, ela quase não usa serviços de gigantes como Amazon, Facebook e Google. Mais ainda: em entrevista ao Estado, sugere que as pessoas deveriam ser pagas pelos dados que fornecem para as empresas.

Na conversa, ela falou sobre a atuação da CA no País – segundo documentos revelados por Brittany, a empresa chegou a negociar com um candidato à Presidência nas eleições de 2018 antes de fechar as portas. O nome não foi revelado.

• Ao ver a postura de Trump na Casa Branca, a sra. se arrepende de tê-lo ajudado a se eleger?

Com certeza. Ele viola dados e tem uma relação relaxada com a verdade. Isso começou na campanha, quando a desinformação era usada para acabar com intenções de voto e aumentar a desconfiança com o governo. Desde a posse, Trump e sua administração transformaram informações digitais em armas. Agora é mais grave: estamos numa crise médica, algo sobre o que não se pode mentir. Não se pode fugir e fazer um vírus parecer irrelevante. Não dá para ignorar o fato de que pessoas estão morrendo.

• No livro, a sra. conta como Facebook, Twitter e Google “emprestaram” funcionários para a campanha de Trump. O mesmo foi oferecido para a campanha de Hillary Clinton, mas os democratas rejeitaram. Essas plataformas contribuíram para eleger Trump?

Sim. Astáticas de micros segmentação de anúncios, oferecidas por essas empresas, podem garantir sucesso a uma campanha política se usadas desde o início. Para Alexander Nix (presidente da CA), é possível vencer uma eleição se você começa a usar dados seis meses antes da eleição. Se começa entre nove meses e um ano, a chance é muito boa. Com dois anos, av itó riaé praticamente garantida. É algo ase considerar em campanhas de reeleição. A equipe de Trump tem os mesmos dados e funcionários desde 2016.

• O que mudou de 2016 para cá, na sua visão? O uso do WhatsApp, por exemplo?

O WhatsApp ficou menos seguro. A criptografia foi enfraquecida, o que levou à saída dos fundadores. Hoje, mais dados são coletados lá para gerar propagandas no Facebook. Além disso, o WhatsApp foi concebido para encaminha- mento de mensagens, o que deixa fácil viralizar informação – ou desinformação, se for o interesse. É uma tragédia para o cidadão comum: é uma ferramenta que pode ser abusada em campanhas, pois não há como monitorar publicamente o que circula dentro dela.

• Há uma onda conservadora global, que parece impulsionada pela internet. Por que a extrema direita parece ser capaz de usar melhor os dados?

Nãoé que eles sejam melhores. Eles estãodis postos afazer isso. Na campanha de Trump, dados foram usados para achar quem apoiava Hillary e nunca votaria nele. (veja arte ao lado) Essas pessoas eram bombardeadas com desinformação sobre a candidata, para que não tivessem vontade de ir votar. Era conteúdo sexista, racista, muitas vezes com calúnia e acusações que se provaram falsas. Naquela época, era muito fácil criar micros segmentações de diferentes partes da população e esconde ressas táticas. É algo perigoso.

• Desde 2016, o Facebook tomou várias medidas para mudar. Como vê a empresa hoje?

Eles foram negligentes desde o começo ao criar um programa que permitiu a mais de 40 mil companhias acessar dados de seus usuários – e não só de quem consentiu com isso. Se você estava no Facebook antes de abril de 2015, sua privacidade não pode ser recuperada. Suas informações ainda estão em milhares de bancos de dados de todo o mundo. De lá para cá, só piorou. O Facebook deu alguns passos ao alertar quando uma propaganda é política, mas isso não é óbvio em todos os casos. O conteúdo de anúncios políticos não é moderado, não precisa respeitar leis – em prol da liberdade de expressão. E há recursos que tornaram mais difíceis a identificação sobre quando alguém vira alvo de campanha.



Existe uma Cambridge Analytica de 2020? Infelizmente, não existe mais só uma CA. Há centenas de CAs por aí. Houve uma proliferação de empresas do tipo ‘propaganda como serviço’, com táticas ainda mais avançadas que as da CA e especialidades como criar contas falsas e fazendas de robôs. São táticas que, até onde sei, a CA não utilizava. Muitos dos meus ex-colegas criaram suas próprias empresas. Tenho fortes razões para acreditar que eles estão usando os

mesmos pacotes de dados que usaram da última vez.

• Nos arquivos que a sra. publicou sobre a atuação da CA no Brasil, há a menção de um possível cliente, candidato à Presidência em 2018. Quem era?

Gostaria de ter esse nome, mas passei o projeto adiante antes de chegar nesse ponto.

• A sra. utiliza serviços de empresas conhecidas por usar dados, como Google, Amazon e Facebook?

Uso de forma limitada os serviços de cada uma dessas companhias. Tenho uma conta no Facebook, mas não tenho apps no celular. Só uso no meu notebook. Ainda uso o Google, mas para enviar emails uso o ProtonMail. Abri uma conta na Amazon algumas semanas atrás, por causa da quarentena, já que todas as lojas estão fechadas. Mas a questão não é deletar todas essas contas. É usá-las de maneira responsável.

• A sra. diz que devemos ser pagos por nossos dados. Como assim?

Desde que passamos a carregar dispositivos, produzimos muitos, mas muitos dados dos quais não estamos cientes. É uma indústria invisível para os indivíduos que estão produzindo ativos. Fomos enganados para dar aquilo que é incrivelmente valioso. Poucas empresas se esforçam para informar integralmente o que vão coletar, ou obter consentimento informado. Nós temos de ser proprietários dos nossos dados. Pense comigo: ao oferecer sua casa no Airbnb, você sabe quem os hóspedes são, porque se hospedam e por quanto tempo vão ficar. Daí, há um acordo sobre o preço, antes da entrega das chaves. Tem de ser assim com os dados. Existe habilidade para que eles sejam um equalizador: se quem tem baixa renda puder ser recompensado por seus dados, é possível tirar milhões da pobreza. Os dados têm valor exponencial, dependendo a quem você decide vender e como é usado. Mas antes de incentivar as pessoas a fazer isso, preciso ter certeza de que nossos direitos básicos estão garantidos.