O GLOBO – 07/04/2020
SÉRGIO MATSUURA
O isolamento social — para aqueles que podem ficar em casa —para conter o avanço da pandemia do novo coronavírus impôs a muitos uma necessidade: o teletrabalho e a educação a distância. E algumas plataformas ganharam popularidade rapidamente, como o Zoom, que passou de 10 milhões de usuários em dezembro para mais de 200 milhões mês passado. Mas junto com a fama vieram escândalos de privacidade e segurança.
—O Zoom é um exemplo típico de aplicação que, da noite para o dia, ganha milhões de usuários. E, com mais pessoas, torna-se alvo de ataques cibernéticos e de análises de vulnerabilidade — avalia Carlos Affonso Souza, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS). —É nesse momento que elas são testadas para ver se suportam esse volume de tráfego. E o Zoom falhou.
Primeiro surgiram dúvidas sobre a privacidade, pois o aplicativoparaiOSenviavadadosparaoFacebookseminformar aos usuários. Depois, uma análise do site The Intercept mostrou que a companhia mentia sobre a aplicação de criptografia ponta a ponta, o que exigiu um pedido público de desculpas. E pesquisadores do Citizen Lab, da UniversidadedeToronto,revelaramquea plataformageravachavescriptográficas em servidores na China, mesmo para conversas realizadas nas Américas.
Mas a bomba foi publicada na sexta-feira pelo Washington Post. O jornal americano teve acesso a milhares de vídeos da plataforma, que estavam disponíveis para qualquer pessoa na internet. Sessões de terapia, reuniões de negócios, aulas virtuais de ensino fundamental e até cenas de nudez.
Na semana passada, Elon Musk proibiu o uso do Zoom por funcionários da SpaceX em reuniões de trabalho. No fim de semana, a cidade de Nova York baniu o aplicativo nas escolas públicas e, por aqui, a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendou o mesmo.
—Eu realmente errei como CEO, e precisamos ganhar a confiança de volta. Esse tipo de coisa não deveria acontecer — afirmou Eric Yuan, diretor executivo do Zoom.
Frente a esses problemas, Daniel Barbosa, especialista em segurança da informação da ESET, recomenda que usuários procurem alternativas. Para reuniões confidenciais, o Zoom não deve ser utilizado, pois não oferece criptografia ponta a ponta. Mas para conversascotidianaspodesersuficiente, desde que adotadas medidas de segurança.
No mercado existem alternativas, inclusive de gigantes como Teams e Skype, da Microsoft; Hangouts, do Google; e Messenger, do Facebook. Mas todo o cuidado é pouco, e usuários devem se informar sobre as aplicações. O HouseParty, aplicativo que caiu na graça do público, é acusado de vazar dados de usuários.