O ESTADO DE S.PAULO – 25/08/2020

JULIA LINDNER, JUSSARA SOARES, RAFAEL MORAES MOURA, JOÃO KER e PEDRO PRATA

No evento “Brasil vencendo a covid-19”, no Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro disse ter sido alvo de “deboche” quando declarou que seu “histórico de atleta” impediria infecção mais grave pela covid-19 e afirmou, dirigindo-se a jornalistas: “Quando pega num bundão de vocês, a chance de sobreviver é bem menor”. Ministros do STF e políticos criticaram o comportamento do presidente.

O presidente Jair Bolsonaro reforçou ontem ataques à imprensa durante um evento no Palácio do Planalto sobre a pandemia do coronavírus. Ao dizer que foi alvo de “deboche” quando declarou que seu “histórico de atleta” impediria uma infecção mais grave pela covid-19, Bolsonaro afirmou, dirigindo-se a jornalistas: “Aquela história de atleta né, que o pessoal da imprensa vai para o deboche, mas quando pega num bundão de vocês, a chance de sobreviver é bem menor”. Ministros do Supremo Tribunal Federal e políticos reagiram e criticaram o comportamento do presidente.

Anteontem, durante agenda em Brasília, Bolsonaro já havia ameaçado de “porrada” um repórter do jornal O Globo que o questionou sobre depósitos feitos pelo ex-assessor Fabrício Queiroz à primeira-dama Michelle Bolsonaro. Essa ameaça e o episódio de ontem levaram à terceira maior onda de repercussão negativa nas redes sociais desde o início da pandemia. Em reação, perfis bolsonaristas passaram a compartilhar um vídeo com legendas falsas sugerindo que o repórter de O Globo teria provocado o presidente com uma citação à filha dele (mais informações na pág. A8).

No encontro de ontem no Planalto – chamado de “Brasil vencendo a covid-19” – Bolsonaro não fez qualquer menção às vítimas do novo coronavírus ou a seus familiares, disse que a imprensa só sabe “fazer maldade” e defendeu o uso da hidroxicloroquina no tratamento precoce da doença. A substância, no entanto, não tem eficácia comprovada para a covid-19 e já foi descartada de testes da Organização Mundial de Saúde (OMS). Além disso, o Brasil registra 115 mil mortes decorrentes do coronavírus e está há cem dias sem ministro da Saúde. O interino da pasta, Eduardo Pazuello, não compareceu ao evento, pois estava em viagem ao Ceará.

Participaram da cerimônia médicos que defendem o uso da hidroxicloroquina, como Nise Yamaguchi. Outro defensor do medicamento, o ex-ministro da Cidadania e deputado Osmar Terra (MDB-PR) ganhou lugar de destaque no encontro. Sobre ex-ministros da Saúde que deixaram o cargo no meio da pandemia, como Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, Bolsonaro declarou: “Assim como se muda de médico, eu mudei de ministro”. Ao fim do evento, presidente e médicos formaram aglomeração para tirar fotos. Todos usavam máscaras.

‘Desapreço’. O decano do Supremo, Celso de Mello, disse ontem ao Estadão que ficou constrangido com a conduta de Bolsonaro, que, para ele, revela “perigoso desapreço e claro desrespeito pela liberdade de informação e de imprensa”.

“O direito ao livre exercício da imprensa é uma condição básica e essencial para o gozo e preservação das liberdades fundamentais em uma sociedade democrática. A grosseria constitui censurável falta de compostura, imprópria e indigna de quem exerce tão elevado cargo na hierarquia da República”, afirmou.

Colega de Corte do decano, o ministro Gilmar Mendes disse considerar “inadmissível censurar jornalistas pelo mero descontentamento com o conteúdo veiculado”. “A liberdade de imprensa é uma das bases da democracia”, escreveu Gilmar no Twitter. Bolsonaro é alvo de inquéritos no Supremo.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou ao jornal O Globo que a liberdade de imprensa é inegociável e disse esperar que o presidente “retome a postura mais moderada que vinha mantendo”. Ontem, em entrevista à Rádio Gaúcha, Maia disse esperar que o “episódio não se repita”. “Não ajuda. Vai criando tensionamentos.” Partidos como PSDB, MDB, PT e PSB cobraram uma retratação do presidente.

Adversário político de Bolsonaro, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), fez duras críticas ao presidente. “Nem o senhor nem ninguém vai ameaçar a democracia. A democracia, presidente, é mais forte que o senhor. Ela já resistiu a outras ameaças. E resistirá também ao seu ímpeto de flertar com o autoritarismo”, afirmou o tucano ontem durante entrevista coletiva.

O ministro Fábio Faria (Comunicações) foi ao Twitter dizer que “torcedores do caos perderam”. “A paz continua”, escreveu. Procurado, o Planalto não se manifestou até a conclusão desta edição.