O GLOBO
Janaína Figueiredo
Filho de republicanos espanhóis, com uma avó comunista e um avô anticlerical, Joaquín Salvador Lavado, conhecido por todos como Quino, cresceu numa família de imigrantes na Argentina profundamente politizada, que marcou seu pensamento e sua obra. Entre os dez e os 18 anos, esteve de luto pelas sucessivas mortes de seu avô, sua mãe e seu pai, o que o obrigou a usar uma faixa preta no braço que lhe provocava a “terrível sensação”, como ele mesmo descreveu, de sentir-se um nazista. Desde criança, rechaçou qualquer tipo de opressão social e essa aversão o acompanhou pelo resto da vida. Através do desenho, Quino, falecido nesta quarta-feira, aos 88 anos, vítima de complicações de um AVC, expressou suas angústias, frustrações, temores e visões de mundo.
A pequena e simpática Mafalda foi sua principal criação e seu trampolim para uma carreira de projeção internacional. Mas foi, também, uma prisão da qual o desenhista tentou sair em 1973, após nove anos de dedicação quase exclusiva, mas não conseguiu. Mafalda, para a incompreensão de seu pai artístico, continuou brilhando e tem uma legião de fãs no mundo inteiro.
Órfão desde muito cedo, Quino morou vários anos com seu tio, o desenhista e publicitário Joaquín Tejón, de quem aprendeu a paixão por um trabalho que desempenhou até a cegueira se tornar um pesadelo em sua vida, antes de completar 80 anos. Nascido em 17 de julho de 1932 na província de Mendoza, Quino começou a desenhar aos três anos, como muitas crianças, e decidiu que esse seria seu ofício aos 14. Chegou a se inscrever na Escola de Belas Artes de Mendoza, mas abandonou a carreira acadêmica e aos 18 anos instalou-se na capital do país, onde começou a trabalhar em revistas.
Gracias: Paulo Coelho, Laerte, Emicida e outros fãs ilustres se despedem do cartunista
Em entrevistas, Quino reconheceu ser um desenhista obsessivo e revelou que o desenho era central em sua vida e o fez até mesmo adiar o descobrimento do sexo. Os primeiros erros cometidos o afligiram profundamente. Em uma das primeiras páginas de humor que conseguiu publicar desenhou um toureiro que tinha matado um touro e estava vestindo sua tradicional capa. Um leitor enviou uma carta tratando o desenhista de burro e explicando que, antes de matar o touro, todos os toureiros jogam a capa a alguém a quem dedicam a vitória. Numa longa entrevista ao jornal “Página 12” quando completou 80 anos, Quino reconheceu que “aquilo me marcou. Por isso depois me transformei num obsessivo da pesquisa e documentação”.
PUBLICIDADE
‘Impacto no poder’
O desenhista passou por várias redações e conseguiu publicar sua primeira página de humor gráfico na revista “Esto Es”. Era uma época em que as revistas faziam grande sucesso na Argentina e Quino passou por várias até que em 1964 a famosa “Primera Plana” apresentou quem seria sua personagem mais famosa: a curiosa, intempestiva, sagaz e provocadora Mafalda. Antes dela, o desenhista lançou o livro “Mundo Quino”, uma recopilação de quadrinhos humorísticos.
Pode-se dizer que Mafalda nasceu por acaso. Uma marca nacional de eletrodomésticos pediu a Quino que criasse uma típica família de classe média para uma campanha publicitária. A campanha nunca saiu do papel, mas Mafalda foi um sucesso imediato no mundo das histórias em quadrinhos. A partir de 1965, suas tirinhas passaram a ser publicadas pelo jornal “El Mundo”, e posteriormente pela revista “Siete Dias Ilustrados”.
— Quino foi o melhor herdeiro da escola francesa de desenhistas dos anos 50. Ele sempre disse que se sentia preso em Mafalda e, de fato, como humorista é muito mais do que Mafalda — disse Martín Pérez, editor do “Página 12” e do livro “Distinta”, uma compilação de histórias em quadrinhos argentinas.
PUBLICIDADE
Em algumas entrevistas, Quino diz ter encontrado seu estilo após o nascimento de Mafalda, personagem que, num começo, calcava em janelas de vidro porque temia não ser fiel ao desenho original.