O ESTADO DE S.PAULO – 28/05/2020
Membro da Academia Brasileira de Letras e também jornalista, Murilo Melo Filho morreu nesta quarta-feira, 27, aos 91 anos, no Rio. Com extensa carreira no jornalismo profissional, Melo Filho foi eleito para a ABL em 1999. Ele teve falência múltipla dos órgãos, quatro anos depois de ter sofrido um AVC.
Nascido em Natal, no Rio Grande do Norte, em outubro de 1928, ele começou a trabalhar no Diário de Natal com apenas 12 anos, escrevendo comentários esportivos. Aos 18, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou no IBGE, no Ministério da Marinha e em diversos jornais, incluindo o Correio da Noite,a Tribuna da Imprensa, o Estadão e na revista Manchete, veículo para o qual colaborou por 40 anos.
Nos anos 1960, foi diretor da Manchete, acompanhando de perto a construção e os primeiros anos de Brasília, onde também ensinou jornalismo na Universidade de Brasília.
De Juscelino Kubitschek a José Sarney, Melo Filho acompanhou viagens e entrevistou os líderes políticos do País, visitando os cinco continentes e participando
FOI O PRIMEIRO REPÓRTER DO BRASIL A COBRIR A GUERRA DO CAMBOJA
da cobertura de alguns dos principais acontecimentos históricos da segunda metade do século 20. Cobriu a guerra do Vietnã, com o fotógrafo Gervásio
Baptista, em 1967, e foi o primeiro jornalista brasileiro a cobrir a guerra do Camboja, com o fotógrafo Antônio Rudge, em 1973.
Entre colaborações e artigos, seus textos figuram em livros como Cinco Dias em Junho (de 1967, com Arnaldo Niskier, Joel Silveira e Raimundo Magalhães)
e O Desafio Brasileiro (1970), texto que vendeu 80 mil exemplares em 16 edições e lhe rendeu o Prêmio Alfred Jurzykowski, da ABL, como o melhor ensaio do ano.
Seus trabalhos mais recentes foram O Brasileiro Rui Barbosa (A União Editora, 2009) e Políticos ao Entardecer (Editora Cultura, 2009).
Murilo Melo Filho foi também membro do Conselho Administrativo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e membro da União Brasileira de Escritores (UBE), bem como oficial militar da reserva.
O atual presidente da ABL, Marco Lucchesi, lamentou o falecimento de Melo Filho: “Murilo Melo Filho foi um dos grandes jornalistas brasileiros da segunda metade do século 20. Acompanhou de perto a política nacional, a construção de Brasília e a guerra do Vietnã. Conheceu inúmeros chefes de Estado, a quem dedicou páginas antológicas, dos mais variados espectros políticos. Foi também um acadêmico exemplar, assíduo, com a disposição de emprestar seu talento aos mais diversos cargos e serviços na Academia. Guardo a imagem de um homem bom, de uma alta sensibilidade humana, voltada sobretudo para os mais vulneráveis e desprovidos. Um momento de tristeza”, disse por meio de nota.
“Murilo partiu, mas deixou uma obra extraordinária; na minha opinião, foi o maior repórter político do Brasil durante todos os anos em que trabalhou ativamente na imprensa. Ele deixou um estilo cristalino, um estilo direto, formidável. Esse é o Murilo que nós saudamos”, comentou Arnaldo Niskier, acadêmico que recebeu Murilo Melo Filho na ABL em 1999.