FOLHA DE S.PAULO – 23/08/2020

Ana Estela de Sousa Pinto

“Foi a noite mais aterrorizante da minha vida. Senti mais medo que na linha de frente em Donbass [onde tropas russas e ucranianas se enfrentaram em 2014]”, disse Jakub, correspondente polonês que havia saído de Minsk e voltado para Varsóvia no dia 11.

Na véspera, ele correu e pulou cercas para escapar da repressão policial. Passou a madrugada agachado, temendo ser visto por agentes da tropa de choque que a cada 15 minutos vinham fumar um cigarro a poucos metros de distância.

Manifestantes durante protesto contra o regime de Lukachenko na Praça da Independência, em Minsk
Manifestantes durante protesto contra o regime de Lukachenko na Praça da Independência, em Minsk – Sergei Gapon – 20.ago.20/AFP
“Meus colegas pegos foram muito espancados. Não há a menor segurança”, afirmou o jornalista na terceira noite de protestos contra a eleição que apontou vitória, sob suspeita de fraudes, de Aleksandr Lukachenko.

As informações eram de 50 repórteres presos, e vídeos na internet mostravam equipes de TV apanhando gratuitamente, apesar de usarem credenciais e coletes de identificação.

Com a pressão sobre a imprensa internacional, era difícil encontrar contatos na Belarus sem os quais reportar no país seria inviável: lá, poucos falam inglês ou línguas latinas.

O russo é a primeira língua, tanto falada quanto escrita. O bielorrusso, língua eslava também oficial, é usada em alguns locais, como o metrô. Ambas usam o alfabeto cirílico, o que complica um pouco a orientação.


Além disso, com o governo prendendo a esmo, o trabalho envolvia riscos para os repórteres e para os guias. O experiente repórter russo indicado por um colega havia sido torturado e deportado, e nomes passados por um jornalista português não atenderam telefonemas nem responderam a mensagens —o bloqueio da internet pelo governo também não ajudava.

Depois de cinco dias de tentativas frustradas, uma força-tarefa de ativistas brasileiros, húngaros e bielorrussos encontraram duas moradoras de Minsk dispostas a fazer as traduções e ajudar a navegar pela cidade.

Passagens e hospedagem foram reservadas seis horas antes do embarque. Não havia tempo para pedir permissão oficial ao governo bielorrusso (e chance diminuta de que ela fosse concedida).

“Leve dinheiro vivo e não mande nenhuma reportagem enquanto estiver lá”, recomendou o colega Igor Gielow, com muita experiência em coberturas de risco.

No desembarque, um aviso pela rede social dizia que os celulares estavam sendo revistados, o que provocou minutos angustiantes à caça de fotografias ou mensagens que precisassem ser apagadas antes de passar pela imigração.

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Sem os equipamentos pesados e vistosos de uma equipe de TV, a entrada e a circulação pelo país não tiveram entraves, embora a tensão fosse constante. A presença de estrangeiros não é comum em Minsk e ainda mais inesperada em um momento de tumulto.

A repressão policial havia recuado muito desde a chegada da reportagem da Folha, no dia 15, mas voltou na véspera da partida, no dia 19. Naquela quarta-feira, avenidas do centro foram bloqueadas, isolando toda a quadra do apartamento reservado.

O noticiário mostrava jornalistas poloneses e franceses sendo barrados no aeroporto. As lâmpadas se apagaram justamente no poste em frente à janela do apartamento, aumentando a paranoia e disparando uma sessão noturna de envio de documentos para a nuvem e limpezas do disco do computador.

Apesar da tensão, não houve perguntas na saída do país, e o segundo risco da viagem, o da epidemia de Covid-19, foi afastado por um teste para coronavírus realizado na chegada, que deu negativo.