O ESTADO DE S.PAULO – 02/08/2020
Bruno Romani, Giovanna Wolf
“Você sabe como fazer um disco em uma live? Não? Nem eu! Vou descobrir com quem me acompanha!”, diz ao ‘Estadão’ o rapper Marcelo D2. Na era dos shows pela internet em meio à quarentena, o artista decidiu produzir um novo álbum e mostrar o processo em tempo real pela internet. Mas, em vez de transmitir tudo pelos populares YouTube, Facebook ou Instagram, D2 está tocando o projeto na Twitch, plataforma de streaming da Amazon.
Ele não está só: nomes como Pitty, Criolo, Fresno e a produtora de funk Kondzilla também aderiram ao serviço. Não é coincidência. Num cenário que parecia consolidado entre Google e Facebook, a Amazon decidiu entrar na briga e transformar a Twitch numa terceira via para conteúdo musical.
Criado em 2011, a Twitch era um projeto da startup americana Justin.tv. Desde o início, o serviço tinha foco nos fãs de games, com a transmissão de partidas e campeonatos virtuais de jogos como League of Legends e Counter-Strike. A popularidade chamou a atenção da Amazon, que arrematou a plataforma por US$ 970 milhões em 2014. Cinco anos após a aquisição, porém, a gigante percebeu que poderia ampliar o escopo de seu serviço para além dos games e passou a contratar, lá fora, executivos de empresas como Spotify e Pandora. Agora, começa a atrair artistas no País.
“Quando veio a pandemia, houve um boom de lives. Decidi observar”, diz a cantora Pitty. “Percebi vários amigos da música indo para Twitch e achei a dinâmica diferente. Vi que ali poderia oferecer conteúdos diversos.” Assim como D2, ela vai além da música, usando a Twitch como um canal de TV. Na internet, ela tem uma grade de terça a sexta-feira, com atrações que versam sobre dicas culturais, feminismo, moda e curiosidades sobre sua carreira.
Segundo Wladimir Winter, diretor de parcerias e conteúdo da Twitch no Brasil, a intenção da plataforma não é de se resumir só a “shows virtuais”. “O YouTube é um espaço bom para produzir um show grande. A Twitch é o lado B da história. Não somos o show, somos o que acontece depois do show.”
Para analistas, a expansão da plataforma pela música faz sentido – é comum, por exemplo, que quem joga na plataforma também mostre seus sons favoritos nas transmissões. “A beleza da coisa é o potencial de reutilização da plataforma, que amplia o potencial de audiência”, diz Luís Bonilauri, analista de mídia e entretenimento da Accenture.
Para atrair os artistas, a Twitch teve de mostrar que podia ser uma nova fonte de receitas. De cara, a plataforma permitiu que as estrelas virassem “afiliados”, categoria especial que libera uma série de ferramentas para faturar. Com ela, os músicos podem receber doações dos fãs durante transmissões ou cobrar uma assinatura mensal, de R$ 22,99, para acesso a conteúdos específicos – o valor só não é cobrado de quem assina o Amazon Prime, pacote de benefícios da gigante que custa R$ 10 por mês e que garante acesso a um canal por mês.
Em seu site, a Twitch afirma ficar com 50% do valor das assinaturas. Segundo apurou o Es
tadão, a empresa também retém 30% das doações, algo que ela não confirma. O restante vai para o bolso do artista, em uma conta mais benéfica que a oferecida por outras plataformas. “É possível ganhar US$ 1 mil na Twitch mais rápido do que no Spotify”, diz Lucas Silveira, vocalista da banda de rock Fresno.
Analistas questionam se, com tais repasses, os planos da Twitch são sustentáveis a longo prazo. Mas reconhecem que perder agora pode ser uma estratégia de longo prazo – jogada clássica da Amazon. “A empresa não precisa criar imediatamente novas fontes de receitas”, diz Ted Chamberlin, da consultoria Gartner. Segundo ele, a Twitch pode ser usada pela empresa para turbinar outras unidades de negócio, como a área de nuvem ou até mesmo o e-commerce. Outra possibilidade é de vender o software de transmissão usado pela Twitch para a gravadoras e artistas.
Há dois meses na Twitch, Pitty diz ainda não poder estimar o impacto econômico da plataforma. Para ela, porém, a novidade veio para ficar – mesmo com o retorno dos shows, a baiana pretende seguir usando o serviço. Já Lucas, da Fresno, diz que a transmissão online pode até substituir longas turnês.
Para ganhar espaço, porém, a Twitch precisa extrapolar alguns nichos. O primeiro é o de ser visto apenas como plataforma de games. Também tem de conquistar gêneros mais populares – e no Brasil, isso significa sertanejo e funk. Na última semana, o primeiro passo se deu com a abertura do canal da produtora de funk Kondzilla. Com quase 60 milhões de inscritos no YouTube, a firma quer gerar sua própria programação.
“Não dá para depender de uma plataforma só”, diz André Izidro, diretor de marketing da empresa. Resta saber se os fãs de gêneros populares vão doar e assinar como os roqueiros – algo de que Lucas, da Fresno, questiona. “Em gêneros segmentados, o fã compreende seu papel no suporte ao artista”, diz ele. “Em gêneros populares, a relação é mais casual.”
O futuro da Twitch pode tropeçar num paradoxo. De um lado, precisa de nomes populares para romper a bolha. De outro, talvez funcione melhor com artistas que já estão dentro dela. Seja como for, a plataforma da Amazon já mexe com a cabeça de quem a está vivendo intensamente, criando seu próprio universo visual. “Gil Scott-Heron disse que a revolução não seria televisionada”, diz D2. “Ela será transmitida por live, irmão.”