O GLOBO – 20/02/2020

A agenda mundial está repleta de desentendimentos. Transcorrem bilateralmente e em fóruns multilaterais negociações para mediar esses choques e, em certos casos, mais do que isso, para definir regulações a fim de reduzir efeitos colaterais negativos do uso de novas tecnologias e torná-las as mais proveitosas possíveis para a sociedade.


A característica deste setor é que as transformações têm sido rápidas, e o acúmulo de dinheiro e poder em torno de Facebook, Google, Apple, Amazon, para citar as maiores, ocorre na mesma velocidade. No rastro da revolução digital ocorrem desbalanceamentos em diversos mercados e, além disso, direitos e princípios republicanos passaram a ser atingidos pelo uso de redes sociais como o Facebook, por exemplo.

A descoberta da atuação de grupos (Cambridge Analytica) que, a partir de incontáveis informações capturadas na internet, invadem a privacidade de centenas de milhões e até bilhões de pessoas, com softwares carregados em máquinas cada vez mais rápidas, chamou a atenção para algo muito sério que começava a acontecer. Não é só a invasão de privacidade, masa manipulação dos invadidos.

A União Europeia despertou mais ce dopara o problema eestáàfren tedos EUA em ações concretas de regulação e punições dessas grandes plataformas digitais, que se alimentam das informações que capturam em velocidade crescente, sem permissão de ninguém.

CEOs de algumas dessas máquinas invisíveis negociam com os Estados. Talvez porque tenha ficado muito exposto ao surgir no centro do escândalo da Cambridge na manipulação de eleitores do Brexit na Grã-Bretanha —em favor da separação — e pró-Trump na eleição em 2016, no mesmo ano, Zuckerberg, cérebro edono doFa cebo ok, voa comfrequênc ia sobre o Atlântico

para conversar com os europeus sobre regras para o Facebook.

Segunda-feira, o CE O estava em Bruxelas, se deda UE, para conversar sobre a última versão de propostas apresentadas pelo Facebook. As sugestões foram rejeitadas pelos europeus, segundo o “Financial Times”. Foi dito a Zuckerberg que sua empresa terá de assumir mais responsabilidade pelo material divulgadona plataforma de sua propriedade. Parece haver, pelo menos na Europa, uma espécie de cercose fechandosobre essas empresas, que cresceram dizendo não terrespon sabilidades obre o conteúdo que injetam na internet, por não serem empresas de comunicação. Mas atuam com crescente poder no mercado de publicidade e divulgam informações, pelas quais deveriam responder, como ocorre na imprensa profissional. Os espaços parecem estar sendo reduzidos, e essas plataformas deverão ser mesmo reguladas. Há novos capítulos à frente.