O ESTADO DE S.PAULO – 17/05/2020
Bruno Capelas
Um dos principais nomes do mundo quando o assunto é cibersegurança, o russo Eugene Kaspersky está preocupado. Desde o início da pandemia do novo coronavírus, sua empresa de segurança, a Kaspersky, tem observado a atividade de cibercriminosos aumentar. Não é difícil imaginar o porquê: com mais pessoas confiando na tecnologia para trabalhar, estudar e se comunicar, muitos dados estão passando pela internet. Além disso, numa época de incerteza e mudanças bruscas de cenário, a desinformação tem servido como isca para aplicação de muitos golpes.
“Já vemos aumento de 10% no cibercrime. Os hackers estão procurando vulnerabilidades e fraquezas humanas”, diz o russo de 54 anos. Formado em uma escola da antiga KGB, a polícia secreta da União Soviética, ele tem mais de três décadas dedicadas a defender ameaças virtuais.
Mais que isso, foi um dos primeiros especialistas a propor a existência do conceito de ciberguerras, com ataques online à infraestrutura crítica de países. Também ajudou a desbaratar grupos supostamente ligados à agência de segurança americana NSA e que praticavam espionagem em países do Oriente Médio. Agora, além de estar preocupado com o vírus da pandemia, ele também teme ataques a hospitais – algo que, na visão dele, pode ser chamado de “ciberterrorismo”.
Ao Estadão, Kaspersky falou ainda sobre como as pessoas e empresas devem se proteger num momento desses e sobre o uso de ferramentas que monitoram cidadãos em prol do combate à covid-19. A seguir, os principais trechos da entrevista.
• A pandemia do coronavírus está reconfigurando o mundo de muitas formas. Quais são as mudanças na cibersegurança?
Já vemos um aumento de 10% no cibercrime, mundialmente. Não é surpresa: as pessoas estão mais tempo online, trabalhando de casa, e os cibercriminosos estão usando essa oportunidade para atacar, procurando vulnerabilidades e fraquezas humanas. O coronavírus tem sido muito usado em emails de phishing (veja peça
abaixo) contra empresas, citando problemas de entregas de encomendas, cobranças ou outras dificuldades logísticas. Também achamos e-mails oferecendo vacinas ou mensagens que supostamente seriam da OMS (Organização Mundial da Saúde). O objetivo é sempre fazer que você abra anexos maliciosos. Esse tipo de ataque cresceu 43% entre janeiro e março de 2020.
• Haverá um ‘novo normal’ na cibersegurança?
Creio que não. Esta não é a primeira pandemia que o mundo enfrenta. Tivemos a gripe espanhola no início do século 20 e a gripe de Hong Kong em 1968. Coincidentemente, parece haver nova pandemia a cada 50 anos, mas o mundo sobrevive e continua em frente. Então, tenho certeza de que a mesma coisa acontecerá agora. Sim, uma crise econômica é inevitável. Também mudaremos alguns hábitos, mas não vejo esses efeitos na cibersegurança. Os cibercriminosos estão procurando novas maneiras de roubar dinheiro agora, mas creio que isso vai se normalizar com o tempo.
O sr. disse recentemente que hospitais estão sendo bastante visados em meio à pandemia. Por que isso acontece? O que motiva um ataque como esses?
Não sei. Acredito que exista algo muito errado no padrão moral de quem faz isso – embora criminosos não sejam famosos por sua ética. Hospitais estão sob forte pressão para garantir o atendimento médico. As atuais circunstâncias de ciberameaças que podem enfrentar tornam esse desafio ainda maior, e eles podem não ter os recursos para se proteger. O setor hospitalar está conectado à internet: registros de pacientes, resultados de laboratório, equipamentos e infraestrutura hospitalar. Infelizmente, são vulneráveis a ciberataques. Os criminosos podem ter motivações como roubar dados confidenciais de pacientes, sequestrar dispositivos para minerar criptomoedas ou ganhar dinheiro por meio de um ataque de ransomware, sequestrando dados e dispositivos. Para mim, qualquer ataque que coloque em risco a vida e o bem-estar das pessoas deve ser considerado ciberterrorismo.
As pessoas estão trabalhando mais de casa e confiando mais na tecnologia. O mesmo vale para empresas de todo o tamanho. Que conselho o sr. dá para quem quiser se proteger?
Os cibercriminosos estão focando nesses trabalhadores remotos. As empresas precisam fornecer proteção para suas equipes. Para quem tiver meios, recomendo usar um provedor de VPN (rede privada) corporativa, implementar políticas de segurança corporativa e falar com suas áreas de conformidade com leis. Nesse caso, as empresas terão seus funcionários trabalhando em casa, mas em um “perímetro de segurança”. É o que estamos fazendo em nossa empresa. Para quem trabalha por conta própria ou para uma pequena empresa, uma boa solução de segurança, como um antivírus, é obrigatório. Além disso, recomendo não confiar cegamente em nenhum novo serviço ou aplicativo, especialmente para uso corporativo.
• Uma dúvida frequente que as pessoas têm: o cibercrime também tem ‘crimes pequenos’ e ’grandes atividades’? Ou o hacker que cria um malware simples também se engaja em atividades mais complexas?
Há essa divisão. Existem crimes em massa e existem ataques direcionados e profissionais. O cibercrime em massa geralmente é acidental: não há uma vítima específica em mente. Ataques de phishing, redes robôs, ataques de negação de serviço (DDoS), distribuições por trojan são os exemplos mais simples desses ataques “juniores”, que buscam ampla cobertura para ter o maior número possível de vítimas. Já o que chamamos de grandes crimes são feitos por grupos especializados, “profissionais”. A ciberespionagem e o ciberterrorismo são os tipos de ataques mais graves e mais caros, geralmente patrocinados por um país.
• Temos visto muitas ações de monitoramento de smartphones para a luta contra a covid-19. Como o sr. vê o tema, considerando o aspecto da privacidade?
É uma pergunta difícil. Levamos a privacidade muito a sério, mas agora devemos procurar um ponto de equilíbrio entre ela e a necessidade de coletar dados para combater a pandemia. Dados sensíveis atrairão inevitavelmente a atenção dos cibercriminosos, portanto a proteção deles é muito importante para evitar violações no futuro. A abordagem varia conforme o país. Em Cingapura, as autoridades pediram aos cidadãos que instalassem apps especiais em seus smartphones, mas não há coleta obrigatória de informações por parte do Estado. O risco não é apenas que os governos aproveitem de um controle total. Existem muitas empresas privadas envolvidas na coleta de dados e, depois de tudo, podem querer gerar receita com as informações coletadas.