O ESTADO DE S.PAULO – 01/08/2020

Gilles Lapouge • 1923 – 2020

Pablo Pereira, Paulo Beraldo

O jornalista, escritor e colunista do Estadão Gilles Lapouge morreu anteontem em Paris, aos 96 anos. Durante sete décadas de trabalho no jornal, Lapouge manteve uma produção intensa e ininterrupta. Foram mais de 10 mil textos, o último no mês passado. Nascido na França, Lapouge era apaixonado pelo Brasil, onde veio morar em 1951 a convite do jornalista Julio de Mesquita Filho, então diretor de O Estado de S. Paulo. Ele foi contratado por sugestão do hist or i a dor Fernand Braudel .


Sua lacuna jamais será preenchida, homem de uma cultura e de um refinamento que não existem mais nos nossos dias, onde a boçalidade impera”

RUY MESQUITA FILHO, JORNALISTA E ACIONISTA DO GRUPO ESTADO

Jornalista e escritor francês chegou ao ‘Estadão’ em 1951

Morreu anteontem em Paris o francês Gilles Lapouge, jornalista, escritor e colunista do Estadão. Lapouge completaria 97 anos em novembro e acumulava sete décadas de carreira no jornal. Neste período, manteve uma produção intensa e ininterrupta. Foram mais de 10 mil textos para o jornal, o último deles no mês passado. Viúvo, deixa os filhos Benoit, LaureMarie, Mathilde e Jérôme Garro. “Ele não resistiu a uma infecção pulmonar”, informou Jérôme na manhã de ontem.

Lapouge era um apaixonado pelo Brasil, onde veio morar em 1951 a convite do jornalista Julio de Mesquita Filho, então diretor de O Estado de S. Paulo. Ele foi contratado por sugestão do historiador francês Fernand Braudel. Em São Paulo, foi trabalhar na antiga redação do jornal, no centro da cidade, escrevendo sobre economia internacional e sobre o Brasil. Entre as suas coberturas marcantes, está a da morte do general Charles de Gaulle.

O primeiro texto de Lapouge foi publicado sem a assinatura dele, na edição de 25 de janeiro de 1951, relatando “a situação econômica na França”. Passou a assinar como jornalista do Estadão em janeiro de 1954, quando publicou o texto A vocação industrial de São Paulo, em um caderno especial sobre o 4.º centenário da cidade. O último texto – As coincidências da raiva – foi publicado em junho deste ano. “Ele tinha muito orgulho de trabalhar no Estadão por 70 anos”, disse Jérôme, ao comunicar a morte do pai. “Ele sempre dizia ‘ meu jornal’, quando nos falava sobre o Estadão. Lembro também que, há alguns anos, ele falou sobre a carta com a qual se candidatou ao jornal: ‘Havia toda a minha vida nesta carta’.”

“Fiquei chocado com a notícia da morte do Gilles Lapouge, de longe o melhor correspondente do Estado, onde nos honrou com seu trabalho por 70 anos. Sua lacuna jamais será preenchida, homem de uma cultura e de um refinamento que não existem mais nos nossos dias, onde a boçalidade impera. Enriqueceu o Estado com seu trabalho ininterrupto a partir de 1950, quando, a convite de meu avô, Julio de Mesquita Filho, e por indicação de outro gigante, o historiador francês Fernand Braudel, veio para o Brasil. Tive o privilégio de sua amizade e generosidade por 50 anos”, afirmou Ruy Mesquita Filho, jornalista e acionista do Grupo Estado.

Para João Caminoto, diretor de Jornalismo do Grupo Estado, “a biografia de Lapouge está entrelaçada com a história do Estadão ao longo dos últimos 70 anos”. “Perdemos um grande jornalista, escritor e intelectual sempre apaixonado pelo Brasil, mas acima de tudo uma pessoa de enorme grandeza. Ficamos mais pobres”, afirmou.

Em junho, os filhos de Lapouge informaram que o pai havia passado por uma cirurgia e se recuperava lentamente no hospital. Nesse período, Gilles passou a rever no Twitter seus textos publicados no Estadão. Tinha planos de criar uma conta na rede social e de voltar a escrever logo.

Lapouge gostava de relembrar os seus primeiros dias no Brasil. Em evento de homenagem a ele, promovido pelo jornal, fez um relato emocionado das primeiras imagens que o marcaram no ensolarado Rio de Janeiro. Ele lembrou que vinha de uma Europa devastada pela guerra e que chegou a um lugar que lhe parecia “um paraíso”. Mas emendava, em seguida, que logo tinha conhecido o outro lado brasileiro. “Foi quando conheci a miséria”, lembrava.

Gilles também deixou uma obra literária importante, que mostra a preocupação humanista com as questões do mundo. “Tinha um amor especial pelo Brasil, com uma visão crítica do País. Era um patrimônio do jornal”, afirmou o ex-diretor de Desenvolvimento Editorial Roberto Gazzi, que hospedou o francês em visitas ao Brasil, nos anos 2000.

“Lapouge era um viajante elegante e provocador. Acima de tudo, um grande escritor. Seu trabalho premiado é preenchido com ( histórias de) piratas, memórias de sonhos, selvas e paraísos perdidos”, afirmou Valérie Dumeige, que foi editora de Lapouge na Editions Arthaud. “Os teólogos geralmente aconselham a morrer antes de entrar no paraíso, mas alguns preferem criar pequenos paraísos imediatamente para aproveitar as delícias do belo jardim durante sua vida”, escreveu Lapouge no livro Atlas de Paraísos Perdidos. “Essa frase resume exatamente o que o Gilles era”, disse Valérie.

“Na França, todos admiravam Gilles e você só podia vê-lo depois que ele escrevia sua coluna. Ele impressionou a todos nós com a beleza de sua alma, seu humor e sua elegância. Ele era um viajante, foi para a África com seus filhos há dois anos (o jornalista na época tinha 94 anos). Para nós, é uma árvore enorme e bonita que acaba de ser derrubada”, continuou a editora.

Sobre a viagem à África, Mathilde Garro Lapouge, sua filha, recorda o espírito aventureiro do pai. “Fizemos uma viagem de carro com um 4 x 4 por uma semana. Papai, Jérôme e eu, em 2018. Saímos de Dacar, no Senegal, e subimos até fronteira da Mauritânia. Dormimos em uma barraca no deserto. Papai ria sempre, porque dizia que essa tinha sido uma das melhores noites que ele passou em anos.”

Lapouge recebeu também homenagens de representantes dos setores político e econômico no Brasil. Para o presidente do Conselho de Administração do Bradesco e colunista do Estadão, Luiz Carlos Trabuco Cappi, ele “foi uma fonte permanente e segura para a formação de sucessivas gerações de leitores no Brasil”. O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), destacou que o jornalista, “que se apaixonou pelo nosso país”, contribuiu “para a consolidação da nossa democracia e de uma sociedade mais justa por meio de seus artigos e coberturas”.

‘Deixei uma Europa mutilada e desembarquei num país de sol’
Gilles Lapouge, em texto de 1992, sobre quando conheceu Julio de Mesquita Filho

“Conheci Julio de Mesquita Filho ao mesmo tempo que descobri o Brasil, dois personagens igualmente consideráveis. O encontro ocorreu no aeroporto do Rio, no início de 1951, durante o verão (…) Convidado por um amigo de Julio de Mesquita Filho, o professor Fernand Braudel, para ser redator econômico no Estado, deixei uma Europa cansada e mutilada por uma recente guerra, com sua tristeza provocada pela barbárie, seus horrores, e desembarquei num país de sol, alegria e vida.

E o inacreditável foi ser recebido pelo próprio diretor do Estado, que teve a cortesia, a delicadeza de viajar de São Paulo ao Rio para receber um jovem jornalista francês. Viajamos para São Paulo. Observava espantado as paisagens pitorescas do País. Demos rápida volta pelo centro, onde admirei o edifício Matarazzo. Tudo era estranho. Fiquei hospedado num hotel no centro.

Eu era jornalista do Estado. Escrevia artigos, aprendia a língua portuguesa e Julio de Mesquita Filho falava comigo todas as tardes, por volta das 17h (…) Durante mais de 20 anos trabalhei com ele, escutei seus ensinamentos. Admirei sua inteligência, cultura, a amplitude de sua visão. Mas o que mais admirei foi sua honestidade intelectual. E nesse dia de 1969, quando que jamais reveria Julio de Mesquita Filho (que havia morrido), disse a mim mesmo que havia perdido um homem que, pela primeira vez, ousava chamar de ‘meu amigo’.”

Uma demonstração de cultura e sensibilidade

WILLIAM WAACK – JORNALISTA E COLUNISTA DO ‘ESTADÃO’
Como romancista e jornalista, Gilles traduzia como poucos os momentos que se desenrolavam diante de nossos olhos

Tive a sorte na minha carreira de trabalhar com alguns excepcionais jornalistas, e Gilles Lapouge foi um deles. Sem que ele soubesse, tomei dele uma das lições mais humilhantes. Foi na cobertura da primeira viagem do papa João Paulo II à Polônia, em 1979. Na época, um dos maiores eventos de mídia: o papa polonês, recém-eleito, em outubro de 1978, numa visita de fato histórica a um país comunista.

Eu fazia dupla com o também saudoso Araujo Neto, pelo Jornal do Brasil, e me esforçava em tentar trazer nos textos de reportagens a abrangência e profundidade do significado daquela visita papal. Lendo o que Lapouge escrevia sobre o mesmo evento, sentia-me muitíssimo inferior à cultura, capacidade analítica e interpretação do que ele era capaz de trazer sobre religião e política, sobre o papel da personalidade na história, sobre a importância do símbolo, das emoções políticas, do peso daquilo que historiadores franceses como Fernand Braudel chamaram de “longue durée”.

Gilles foi para mim a grande lição de como um romancista e intelectual genuíno era capaz, ao mesmo tempo, de “traduzir” para o público um momento que se desenrolava diante de nossos olhos. Impossível concorrer com aquela demonstração jornalística de cultura e sensibilidade. Além disso, era um homem excepcionalmente generoso e paciente com os mais jovens do que ele, como eu. E formava em Paris uma dupla maravilhosa com o também inesquecível Reali Junior. Posso imaginar os dois juntos hoje, em algum lugar lá em cima, trocando as gargalhadas abertas e sinceras, que eram também o jeitão deles. É um mundo que foi embora.


LITERATURA MOSTRA O TALENTO DE UM ESCRITOR CRÍTICO
Premiado pela Academia Francesa, ele buscou o paraíso perdido no Brasil e escreveu livros sobre sua paixão e suas decepções com o País
O Estado de S. Paulo1 Aug 2020Antonio Gonçalves Filho
REPRODUÇÃO
Há mais ou menos um ano, Gilles Lapouge, colaborador habitual do caderno Aliás nestes três últimos anos, escreveu um texto em que analisava o mercado editorial francês. A França tinha motivos para comemorar o crescimento vertiginoso da publicação de livros na última década? Contrariando as expectativas, ele respondeu que não: “Tais números são enganosos porque, na verdade, editores e livrarias sofrem, mostram sinais de fadiga”. Poucos autores, em sua opinião, mereciam ser assim chamados. “O crescimento exponencial da oferta não elevou a qualidade; o desperdício é gigantesco; a maioria desses escritos é medíocre”. Naturalmente, Lapouge era uma exceção. Jornalista experiente, ele manteve o bom hábito da leitura e, portanto, escrevia como poucos. Foi um privilégio ser seu interlocutor e editor.

Estivemos juntos algumas vezes, sempre em suas breves passagens pelo País. Vinha lançar um livro ou participar de um debate, que tanto podia ser sobre política como sobre o amor, sobre a dificuldade de amar. Esse era um tema caro a Lapouge. Gilles até escreveu um livro sobre ele. Mais especificamente, sobre a dificuldade de amar o nosso país. Em Dicionário dos Apaixonados pelo Brasil, ele toca em assuntos desagradáveis como racismo e violência para descrever sua relação de quase 70 anos com o País.

Um de seus livros mais recentes trata exatamente dessa busca pelo paraíso que logo se revela um inferno. Aos 95 anos, Gilles lançou uma obra sobre a utopia, sobre os paraísos reais ou inventados pelos homens: Atlas des Paradis Perdus. Nele, Lapouge recupera os paraísos perdidos de lorde Osgood e os Campos Elísios imaginados por Henri Racine de Monville, também no século 18, um parque temático que sucumbiu à Revolução Francesa. Nesse paraíso imaginário, pagodes chineses dividiam o espaço com igrejas góticas.

Mas o que parecia um paraíso real para ele em 1951 virou um inferno bem maquiado, uma Cítera à beira do colapso ambiental, o que o afastou cada vez mais do Brasil. Melhor pegar outro livro de Lapouge, Noites Tranquilas em Belém, romance publicado em 2015 e que será brevemente lançado pela Pontes Editores. Nele, a cultura francesa se funde à brasileira. Um narrador em busca da própria identidade dá ao leitor um perfil curioso de Gilles, um homem premiado pela Academia Francesa que, de fato, amou nosso território que tão pouco tem a oferecer além da ignorância e da brutalidade.

Ainda sobre os tristes trópicos Lapouge escreveu Equinociais: Viagens Pelo Brasil dos Confins, em que narra uma viagem feita em 1975. Nela nascia uma visão crítica a respeito do falso paraíso que agora trocou pelo real. Como disse o próprio Lapouge em seu Atlas, os homens não perdem a mania de buscar o paraíso perdido, mesmo que saibam que o Éden cerrou suas portas. Portanto, reconstruir esse paraíso por meio da literatura é não só um sinal de perseverança como de amor à civilização. Gilles tinha os dois. E esperança.

A HISTÓRIA CONFIRMADA POR LAPOUGE
Liz Batista, Edmundo Leite

Nas sete décadas em que escreveu para o Estadão, Gilles Lapouge foi capaz de comunicar eventos históricos com precisão jornalística sem deixar de lado o refinado estilo literário. Informativos, analíticos, certeiros e elegantes, seus textos sobrevivem ao tempo e mais, à história. Ao tempo, porque constituem fontes documentais que narram os acontecimentos políticos e sociais que moldaram nossa realidade – do pósguerra à sociedade em rede do século 21. À história, porque suas análises e impressões sobrevivem ao teste do tempo. O que foi escrito por Lapouge no calor de uma cobertura jornalística é hoje consenso entre historiadores, sociólogos, cientistas políticos e outros estudiosos que buscam compreender o passado.

Na sua primeira grande cobertura, a da Guerra da Argélia – um conflito que dilacerou a França e pôs fim ao seu império colonial ao custo da morte de 30 mil soldados franceses e 500 mil argelinos –, Lapouge percebeu a faceta trágica daquele conflito marcado por ataques terroristas e pela tortura sistemática. “Não será inquietante verificar que o vigor do ímpeto dos rebeldes não deixa de crescer, à medida que aumentam suas baixas? É como se tivessem uma reserva de homens inesgotável e a violência da réplica francesa, abrindo uma brecha maior entre muçulmanos e europeus, tivesse como resultado recrutar incessantemente novos rebeldes”, escreveu em 1958. A cobertura crítica da guerra lhe valeu a cassação de suas credenciais pelo governo francês, em 19 de agosto de 1958, sob a alegação de que dava, em seus artigos, “uma visão deformada da realidade política francesa em geral e, em especial, do que se passa na Argélia”.

O ato de censura desencadeou uma enorme campanha pela restauração da sua habilitação profissional. O caso se transformou numa bandeira pela liberdade de imprensa e foi denunciado por Julio de Mesquita Neto à Associação Interamericana de Imprensa. Lapouge recuperou suas credenciais e, em 1962, foi o enviado especial do jornal à festa de independência da Argélia. Sobre o desfecho escreveu: “Todas as guerras são absurdas, mas o epílogo patético de uma das maiores tragédias do pós-guerra demonstrou-o com uma rara clareza”.

Em 1970, ele informou o impacto monumental que a morte de Charles de Gaulle representou para os franceses: “Um monstro acabava de desaparecer, uma dessas criaturas inclassificáveis, um campeão fora de série que chegou a ser detestado mais do que qualquer outro, mas que jamais deixou de ser admirado como pessoa. Repentinamente, esta manhã, terminou um dos grandes capítulos da história francesa.”