O ESTADO DE S.PAULO – 05/07/2020
O LinkedIn existe há 17 anos, mas só se tornou social de fato recentemente. Por que a demora? O LinkedIn, como rede social, pertence à chamada web 2.0, que trouxe a interação das pessoas como marca. Mas em seus primeiros anos, ele parecia feito ainda para a web 1.0, dos sites e páginas pessoais. Essa evolução foi muito lenta, mas justamente porque eles não queriam se transformar rapidamente em uma rede social como o Facebook ou o Twitter. Eles foram bastante cuidadosos para ter um posicionamento de mercado bem definido, com regras próprias e sem o descontrole de outras redes.
• O que impulsiona o crescimento recente do LinkedIn?
Cada vez mais o vínculo de trabalho é flexível, o que faz com que as pessoas tenham de estar numa vitrine, buscando sempre uma vaga. Por outro lado, o trabalho é cada vez mais colaborativo, porque as pessoas estão em lugares diferentes e também pela ligação entre empresas. É um tipo de trabalho um tanto quanto precário. Mas, para quem precisa estar em rede e buscar conexões, o LinkedIn funciona. Ele traz novas possibilidades de interação, permite a construção de uma reputação profissional. Aqui no Brasil, pesa ainda a crise econômica, que faz com que mais pessoas estejam em busca de um emprego ao mesmo tempo.
• O LinkedIn tem caráter profissional. Não é cansativo ter que estar sempre online, pensando em trabalho?
Sim. Um autor coreano, ByungChul Han, diz que vivemos hoje a sociedade do cansaço. Lá atrás, existiu uma utopia de que a revolução digital traria mais tempo para o ócio. O que houve foi o contrário. As redes sociais não só não trouxeram mais tempo como também achataram o tempo. Pioraram as relações humanas. No LinkedIn, isso avança: estar ali, discutindo trabalho, usando a rede, é acrescentar horas de trabalho para além das horas de trabalho formal. É atese de que até mesmo nas horas de lazer você precisa fazer algo produtivo, criando conteúdo interessante e relevante. É uma crítica ao capitalismo e suas transformações atuais: uma vez que se esgota o modo de produção, o caminho é esgotar as pessoas – e não é à toa que há o crescimento, hoje, de problemas psicológicos, quase como uma neurose coletiva.
• As redes sociais simulam interações da vida ‘física’. Nessa lógica, o que é o LinkedIn?
O LinkedIn tem a lógica do corredor da firma, do cafezinho. Tem gente que diz que ele é o happy hour após o trabalho. Não concordo. Porque, na maioria dos casos, a melhor parte do happy hour é quando o chefe vai embora e todo mundo fica falando mal dele. No LinkedIn, o problema é que o chefe pode ver depois – e isso traz um peso diferente para as relações ali dentro. / B.C.