Por Hélio Gama Neto. Jornalista e assessor de comunicação da ANJ.

Nesta segunda-feira, 28 de setembro, comemoramos o Dia Mundial do Jornalismo (World News Day). A data, muito mais do que uma efeméride, oferece uma boa oportunidade para olhar com atenção para o que estamos celebrando e, principalmente, para o momento em que fazemos isso.

Estamos nos aproximando da terceira década do século XXI diante de desafios que se cruzam e se alimentam. A tecnologia avança numa velocidade difícil de acompanhar. O atual estágio da inteligência artificial (IA), uma tecnologia de quase 70 anos, abre possibilidades extraordinárias e provoca perguntas que ainda precisamos responder. A democracia enfrenta processos de erosão em diferentes partes do mundo. Guerras, perseguições, desigualdades, preconceitos e desinformação continuam produzindo vítimas e ameaçando direitos.

A crise ambiental acrescenta uma urgência concreta a esse cenário. O Planetary Health Check 2026, divulgado em setembro por mais de 60 cientistas e produzido pelo Planetary Boundaries Science Lab, do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impacto Climático, mostra que a humanidade já ultrapassou sete das nove fronteiras planetárias que ajudam a preservar a estabilidade e a capacidade de recuperação dos sistemas da Terra. Todas as sete atingiram o maior nível de transgressão já registrado. O quadro reúne mudança climática, perda da integridade da biosfera, alterações no uso da terra e na água doce, desequilíbrios nos ciclos de nitrogênio e fósforo, introdução de novas substâncias e acidificação dos oceanos.

A pressão humana sobre esses sistemas aumenta o risco de mudanças persistentes e potencialmente irreversíveis. O desenvolvimento sustentável precisa incorporar de vez a preservação e a recuperação dos ecossistemas, a revisão de padrões de produção e consumo e uma transformação efetiva do sistema energético, com redução da dependência de combustíveis fósseis e expansão de fontes de baixo carbono. A recuperação da camada de ozônio mostra, ao mesmo tempo, que ciência, decisões políticas e cooperação internacional conseguem mudar trajetórias. Há conhecimento e capacidade para agir; o tempo disponível para adiar escolhas ficou muito menor.

A humanidade carrega ainda as consequências de crimes que atravessaram séculos. Durante mais de 400 anos, milhões de africanos foram capturados, arrancados de suas comunidades, escravizados e submetidos a um sistema econômico e social sustentado pela exploração, pela violência e pela desumanização racial.

Agora, parece que estamos avançando um pouco rumo a uma reparação. Em 25 de março deste ano, a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) aprovou a Resolução 80/250, que declarou o tráfico de africanos escravizados e a escravização racializada de africanos “o mais grave crime contra a humanidade”, considerando sua escala, duração, caráter sistêmico, brutalidade e consequências persistentes. A resolução, aprovada por 123 votos a favor, 3 contra e 52 abstenções, também reforçou o debate internacional sobre justiça reparatória, incluindo medidas de restituição, compensação, reabilitação e reconhecimento dos danos históricos e de seus efeitos atuais.

O século XX produziria outros horrores. O Holocausto, o genocídio de seis milhões de judeus pelo regime nazista e seus colaboradores, permanece como uma das demonstrações mais brutais de onde podem chegar o ódio, a desumanização e a transformação de grupos inteiros em inimigos por meio da narrativa de uma falácia do espantalho. O antissemitismo atravessou aquele período e continua existindo, exigindo enfrentamento permanente.

A mesma defesa da dignidade humana alcança todas as populações. Na Faixa de Gaza, uma comissão internacional independente de inquérito da ONU concluiu, em 2025, que Israel cometeu genocídio contra os palestinos; as responsabilidades jurídicas seguem submetidas também a outros procedimentos internacionais. Isso não significa negar a crueldade do ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro, a complexidade e os interesses geopolíticos na região. Também não é negar outros absurdos e abusos, como o fato de que  em muitas regiões do planeta regimes autoritários e teocracias a homossexualidade é considerada crime e limitar direitos e liberdades das mulheres é prática corriqueira, além de insana perseguição a pessoas trans e outros grupos minorizados.

As atrocidades e conflitos estão espalhados pelos continentes. No Sudão, por exemplo, a guerra continua produzindo mortes, deslocamentos e graves violações de direitos. Conflitos e perseguições em diferentes regiões da África e da Ásia ampliam uma lista que jamais deveria ser tratada como rotina.

As consequências desses processos históricos também atravessam o presente. Racismo, misoginia, homofobia, transfobia, LGBTfobia, antissemitismo, islamofobia, intolerância religiosa, machismo, sexismo e outras formas de preconceito e discriminação continuam produzindo vítimas. A história muda, assim como mudam os grupos transformados em alvo, mas alguns mecanismos permanecem assustadoramente conhecidos: retirar do outro a sua humanidade, atribuir a uma população inteira a responsabilidade por problemas complexos, produzir medo e transformar pessoas em inimigos.

Combater o antissemitismo, defender os direitos do povo palestino e dos imigrantes em geral, bem como condenar ataques contra civis, venham de onde vierem, pertencem ao mesmo compromisso com a universalidade dos direitos humanos. O racismo estrutural e as desigualdades que atingem populações africanas e afrodescendentes integram esse legado e ajudam a explicar por que a reparação voltou ao debate internacional.

Direitos precisam ser conquistados, preservados e ampliados. As próximas gerações provavelmente reconhecerão outros com uma clareza que ainda estamos construindo.

Também vivemos uma transformação profunda do ambiente de informação. O acesso ao conhecimento ganhou velocidade e escala inéditas, assim como a capacidade de produzir e distribuir desinformação. Manipular informações, explorar medos e preconceitos, desqualificar quem pensa diferente e transformar adversários em inimigos passaram a integrar estratégias de disputa por poder.

O Democracy Report 2026, do V-Dem Institute, registra que, ao fim de 2025, 74% da população mundial, cerca de 6 bilhões de pessoas, viviam em autocracias e apenas 7% em democracias liberais. Segundo os critérios do instituto, havia 92 autocracias e 87 democracias, e os Estados Unidos haviam perdido, pela primeira vez em mais de 50 anos, sua classificação como democracia liberal. O relatório também identifica processos de autocratização em democracias estabelecidas e aponta a liberdade de expressão entre os aspectos mais atingidos pela deterioração democrática.

Uma criação humana extraordinária

É nesse ambiente que discutimos inteligência artificial, que foi criada há cerca de 70 anos, mas que agora chegou a um ponto de alta aceleração. Há décadas a ficção científica imagina máquinas capazes de substituir pessoas ou se voltar contra seus criadores. A realidade oferece uma perspectiva mais imediata: a inteligência artificial é uma criação humana extraordinária, resultado da nossa capacidade de acumular conhecimento, imaginar aquilo que ainda não existe e construir ferramentas capazes de ampliar possibilidades.

Ela pode ajudar em diagnósticos médicos, pesquisas científicas, educação, acessibilidade, tradução, produção cultural, combate às mudanças climáticas e jornalismo. Seu potencial exige que discutamos com igual seriedade os usos que seres humanos, empresas, governos e organizações farão dela. A mesma tecnologia pode ampliar conhecimento ou vigiar populações, produzir falsificações convincentes, reproduzir preconceitos, manipular o debate público, concentrar riqueza e poder e inundar o ambiente digital com conteúdos falsos.

Transparência, responsabilidade, proteção de dados, integridade da informação e autoria passam a fazer parte de uma agenda maior e de um amplo debate global. Uma reportagem, uma fotografia, uma música, um livro, um filme ou uma ilustração existem porque alguém trabalhou para produzi-los. A tecnologia pode mudar profundamente a maneira como uma obra circula e é utilizada, mas autoria, criatividade e direitos continuam fazendo parte da expressão humana.

Como vamos conversar?

A crise climática e ambiental, as diferenças brutais no acesso à saúde, à educação, à tecnologia e ao conhecimento, a corrupção no Estado e no setor privado e as transformações tecnológicas exigem sociedades capazes de conversar sobre problemas complexos.

A democracia vive da possibilidade de discordarmos, convivermos e construirmos consensos mínimos. Para isso, precisa de instituições sólidas, pesos e contrapesos, regras conhecidas, respeito às diferenças, aplicação das leis, pluralismo e liberdade de expressão. Essa liberdade alcança opiniões incômodas e divergentes e convive com as responsabilidades previstas em lei diante de ameaças, perseguições e crimes.

E o jornalismo no meio disso tudo?

Essa pergunta atravessa os mais de 20 artigos reunidos nesta campanha do Dia Mundial do Jornalismo. São autores, países e experiências diferentes tratando de ameaças à imprensa, direito à compreensão, realidade compartilhada, sustentabilidade das redações, crise climática, liberdade, fatos, contexto, método, resistência à censura, investigação, jornalismo local, educação e integridade da informação.

No Brasil, os textos ampliam essa conversa para o jornalismo aprofundado das revistas, a proximidade do rádio e da televisão, a educação midiática e os efeitos da inteligência artificial sobre autoria, criatividade e trabalho jornalístico. A variedade de temas revela a extensão do papel que a informação profissional ocupa na vida em sociedade.

A UNESCO trata o jornalismo como um bem público. Informação confiável e baseada em fatos ajuda a fiscalizar o poder e sustenta a participação das pessoas na vida pública. A perda de fontes locais de informação também produz consequências para a vida das comunidades.

O jornalismo que fui aprendendo

Talvez eu acredite tanto nisso porque comecei a aprender jornalismo muito antes de saber que seria jornalista. Quando eu ainda estava aprendendo a ler, meu pai me levava cedo para a escola e colocava os jornais nas minhas mãos. No caminho, e lia as manchetes, conversávamos sobre a primeira página, por que uma notícia estava ali e outra não. Ele trabalhava com pauta e saía cedo para preparar aquilo que ajudaria a orientar o trabalho da redação. Eu era pequeno e já corria por redações, observava profissionais trabalhando e ouvia conversas que certamente não compreendia por inteiro. Mais tarde, muitas daquelas coisas começaram a fazer sentido.

Um profissional muito experiente me ensinou que investigar faz parte da própria natureza do ofício: procurar, desconfiar, conferir e ir além da versão que chega pronta. “Todo o jornalismo é investigativo, Helinho”, repetia ele em meio às nossas discussões. Foi esse profissional também quem me falou sobre coragem. O medo existe e precisa ser reconhecido, mas pode nos paralisar quando passa a comandar nossas decisões e, no trabalho de apuração, nos afastar da busca pela verdade. Essa lição me acompanhou pela carreira.

Outro ensinamento veio quando eu ainda começava numa grande redação. Estava diante do terminal, nervoso, cercado de anotações de uma pauta sindical e sem saber como transformar tudo aquilo em matéria. Um dos meus mestres percebeu minha aflição, passou por trás da minha ilha e resumiu, com um largo sorriso: o mais importante vai para cima, o menos importante vai para baixo. Era elementar, mas era exatamente o que eu precisava ouvir. Técnica também organiza a ansiedade do repórter.

Ao longo da carreira, fui juntando outros ensinamentos. Aprendi com um excelente pauteiro da editoria de economia que uma boa reportagem muitas vezes começa muito antes de o repórter sair para a rua, na qualidade das perguntas que orientam a apuração. Uma editora de raro talento me ensinou que a credibilidade pertence ao profissional e é construída todos os dias, acompanhando-nos quando mudamos de veículo, função ou cidade.

Com um dos meus primeiros chefes, aprendi que liderança também se exerce ouvindo, abrindo espaço para os outros crescerem e mostrando o caminho sem impor autoridade aos gritos. Houve quem me ensinasse o cuidado com o texto, a precisão de cada palavra e o respeito por quem vai nos ler. Outros me mostraram a importância de estudar sempre, procurar versões diferentes, desconfiar da primeira resposta e também das próprias certezas. Aprendi a fazer o papel do advogado do diabo diante da minha própria hipótese, procurando fatos capazes de derrubá-la antes de me convencer de que estava certa. E aprendi que assessoria de imprensa, quando exercida com ética, rigor e respeito pela informação, também é jornalismo.

Continuar um pouco jovem

Talvez por isso eu tenha aprendido que o tempo deve nos tirar algumas coisas e preservar outras. A experiência ajuda a diminuir a arrogância de quem chega à profissão com muitas certezas, mas vale conservar a curiosidade, a inquietação, a coragem, a alegria e aquela vontade um pouco juvenil de compreender o mundo e, quem sabe, ajudar a transformá-lo.

Ainda muito jovem, conduzi um trabalho acadêmico sobre jornalismo popular que acabou sendo uma experiência importante na minha formação. Eu defendia a importância desses veículos por conseguirem conversar, numa linguagem próxima, com pessoas que conviviam diretamente com deficiências de educação, saúde, segurança, emprego, oportunidades e presença do Estado. Meu professor e orientador, outro raro talento, teve paciência e generosidade com meus métodos, minha arrogância e inquietude. Me fazer pesquisar mais, ouvir posições diferentes e confrontar algumas das certezas que eu levava para o trabalho.

A pesquisa me aproximou de redações e de profissionais que conheciam profundamente esse universo. O Notícias Populares era um exemplo especialmente interessante: um jornal de enorme criatividade, com títulos que entraram para a história da imprensa e uma linguagem que procurava falar diretamente com seus leitores. Aquela experiência me ajudou a perceber que tornar a informação compreensível e próxima também pode ampliar o acesso ao conhecimento, sobretudo numa sociedade marcada por desigualdades educacionais e sociais.

Quanto mais eu pesquisava, mais percebia uma relação de mão dupla. O jornalismo ajudava as pessoas a compreender melhor a realidade e, à medida que esse público sabia mais, passava a cobrar mais qualidade, informação e respostas dos próprios meios de comunicação. O jornalismo informava o público, e o público mais informado passava a exigir mais do jornalismo.

Naquele período conversei com muitos profissionais e gravei horas de entrevistas. Guardo até hoje, mais uma vez, a generosidade de pessoas muito experientes que paravam para ouvir as perguntas de alguém bem mais jovem e compartilhavam aquilo que haviam aprendido. Foi também uma lição sobre a transmissão do ofício: uma geração entrega à seguinte técnicas, dúvidas, princípios, histórias e erros, e cada nova geração precisa testar tudo isso diante do seu próprio tempo. Isso é absolutamente necessário em qualquer profissão.

Com o tempo, compreendi melhor aquela lição sobre o medo. Coragem não significa ausência de medo, mas a capacidade de impedir que ele nos paralise ou determine até onde estamos dispostos a apurar. A ela se juntou outro aprendizado, vindo de uma profissional com quem trabalhei: a alegria também ajuda a superar as muitas adversidades da atividade. É a disposição de seguir trabalhando com os outros, preservar a curiosidade, rir quando for possível e recomeçar depois de uma dificuldade. Coragem e alegria acabaram se tornando, para mim, duas formas de resistência e de continuidade no ofício.

Antes de entrevistar um cientista, um médico, um economista ou qualquer especialista, o repórter precisa estudar. Vai à entrevista para compreender, perguntar e testar o que ouviu, com humildade suficiente para dizer que não entendeu e pedir outra explicação. Perguntas aparentemente simples podem abrir caminhos que a certeza fecha. Quanto mais experiência acumulamos, mais evidente fica a dimensão do que ainda precisamos aprender.

A responsabilidade de causar consequências

Perguntar exige responsabilidade. Uma reportagem pode revelar corrupção, impedir uma injustiça ou ajudar alguém a conhecer um direito. Também pode destruir uma reputação.

O caso Escola Base, nos anos 1990, permanece como uma advertência para gerações de profissionais brasileiros. Pessoas foram acusadas de crimes gravíssimos e tiveram suas vidas devastadas antes que as acusações fossem comprovadas. Falhamos nós, jornalistas, e a Justiça também. O episódio lembra a necessidade de apurar, ouvir os acusados, desconfiar inclusive das versões oficiais e pensar nas consequências de publicar.

Pessoas, redações e máquinas erram. A resposta ao erro faz parte do método que só o jornalismo detém: voltar à apuração, reconhecer, corrigir, explicar, aprender e tentar reparar. Sempre com uma luz de emergência acesa: há certos erros que são irreparáveis, daí o cuidado obstinado para evitar equívocos.

Jornalismo também é dizer se vai chover

Quando defendemos o jornalismo, as grandes investigações, as guerras, a corrupção e a fiscalização dos governos costumam ocupar a primeira lembrança. A vida cotidiana também depende de informação: saber se vai chover, por que faltou água, quando o ônibus passa, por que o posto de saúde está sem medicamento, onde há vaga na escola, por que a rua alaga, o que decidiu a Câmara Municipal ou como uma obra vai mudar o bairro.

Aqui reside a importância do jornalismo regional, local, hiperlocal, comunitário (ou de comunidade) e territorial. Ele conhece a rua, acompanha o poder mais próximo e percebe problemas que dificilmente chegariam a uma redação nacional. Quando uma localidade perde suas fontes de informação, perde também parte da capacidade de conhecer a si própria.

Silenciar quem pergunta

A tentativa de silenciar a imprensa confirma o incômodo que perguntas e fatos podem provocar em quem exerce poder. A censura contemporânea aparece em processos e intimações, campanhas coordenadas nas redes, perseguição digital, exposição de familiares e ameaças. Contra mulheres jornalistas, muitas vezes assume também a forma de misoginia e violência sexualizada. Essas práticas produzem intimidação e podem levar ao silêncio.

Quando alguém é impedido de investigar um tema de interesse público, a sociedade perde uma pergunta feita em seu nome. A liberdade de imprensa garante a possibilidade de conhecer inclusive aquilo que pessoas poderosas prefeririam esconder. No caso dos ataques às mulheres jornalistas, não podemos nos iludir. Há ali também o objetivo maior, o de impedir a igualdade de gênero como um todo, limitando a necessária diversidade que, quase sempre, funciona como catalisador de desenvolvimento social.

Jornalismo pede um público crítico

A confiança do público precisa ser conquistada continuamente. Qualidade, independência, correção, diversidade de fontes, transparência e capacidade de reconhecer erros fazem parte dessa relação. Por isso a educação midiática precisa alcançar escolas, universidades e diferentes áreas de formação.

Um futuro médico enfrentará desinformação sobre vacinas e tratamentos. Um estudante de Biomedicina ou Enfermagem precisará compreender como evidências científicas podem ser distorcidas. Um advogado trabalhará com regras que protegem direitos e liberdades. Um profissional de tecnologia tomará decisões sobre dados, algoritmos e inteligência artificial. Todos ganham quando aprendem a perguntar quem está dizendo algo, de onde veio o dado, qual é a evidência, quais versões foram ouvidas e o que ficou de fora. Um público mais crítico também exige um jornalismo melhor.

Há espaço para muitos jornalismos

A transformação digital mudou profundamente o mercado e colocou plataformas e algoritmos entre quem produz informação e quem a recebe. Também atingiu as receitas que historicamente financiaram as redações. O futuro comporta muitos modelos: empresas tradicionais, novos empreendimentos, organizações independentes, cooperativas, iniciativas digitais e veículos nacionais, regionais, locais e hiperlocais.

A pluralidade também comporta linhas editoriais diferentes. Um veículo pode ter orientação mais conservadora, outro mais progressista; podem estabelecer prioridades e publicar opiniões profundamente divergentes. O compromisso profissional comum está na apuração, na independência, no acesso às diferentes versões, na proteção das fontes, na correção de erros e na responsabilidade sobre aquilo que se publica.

Fontes são indispensáveis e têm seus próprios interesses, conhecimentos e limites. Cabe ao profissional ouvir, conferir, buscar documentos, dados e outras versões e manter a independência necessária para chegar às próprias conclusões. Há espaço para muitos jornalismos, desde que se pratique jornalismo profissional.

Uma conversa que precisa continuar

É por tudo isso que a ANJ se envolveu tão intensamente na mobilização deste Dia Mundial do Jornalismo. Neste ano, temos no Brasil a participação da ABERT, da ANER, do Instituto Palavra Aberta, do Instituto Tornavoz, da ESPM e de outras universidades, ao lado de veículos, organizações e iniciativas que representam parte da enorme diversidade do jornalismo brasileiro.

A campanha começou no Brasil no dia 25 e segue até 1º de outubro. A conversa precisa continuar muito além desse período. Inteligência artificial exige informação confiável. A crise climática e ambiental exige jornalismo científico. O combate à corrupção depende de investigação. A defesa dos direitos humanos depende de tornar visíveis suas violações. O enfrentamento do racismo, da misoginia, da homofobia, da transfobia, da xenofobia, do antissemitismo, da islamofobia e de outras formas de discriminação passa também pelo conhecimento de suas vítimas e de suas consequências.

Compreender guerras e conflitos exige ouvir versões, verificar fatos e conhecer contextos. Fiscalizar governos e empresas exige imprensa independente. Preservar a democracia exige que a sociedade consiga compartilhar ao menos uma base factual a partir da qual possa discordar.

Depois de tantos anos de profissão, continuo achando extraordinário que o jornalismo nos permita fazer tudo isso e, ao mesmo tempo, nos obrigue a voltar todos os dias ao começo: perguntar, ouvir, ler, duvidar, conferir e perguntar de novo. O tempo ensina os limites do que sabemos e do que podemos fazer, sem retirar a vontade de compreender o mundo e, quando for possível, ajudar outras pessoas a compreendê-lo também.

Comecei a aprender isso quando ainda estava aprendendo a ler. Depois vieram professores, chefes, colegas, amigos, grandes profissionais que conheci e outros que conheci apenas pelos textos. Continuo aprendendo.

Nesta segunda-feira, 28, comemoramos o Dia Mundial do Jornalismo. A data nos convida a discutir que sociedade queremos construir, que informação teremos para fazer nossas escolhas e como vamos continuar convivendo apesar das diferenças. O jornalismo pode começar com uma pergunta feita por alguém, numa redação, numa rua ou diante de uma fonte, e a conversa que ele provoca é muito maior. Ela é de todos nós.