Por Cristiano Lobato Flôres, presidente-executivo da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT)
Poucos meios estabeleceram uma relação tão próxima com os brasileiros quanto o rádio e a televisão. Há décadas, acompanham o cotidiano do país, registram nossa história e levam gratuitamente informação, cultura, entretenimento e prestação de serviço a milhões de pessoas.
O rádio talvez seja a expressão mais direta dessa proximidade. Muito antes do smartphone, o radinho de pilha já acompanhava as pessoas em casa, no trabalho, no trânsito ou em qualquer outra atividade. A tecnologia mudou, mas essa relação de companhia permaneceu. Com uma atuação multiplataforma, o Rádio 3.0 combina a tradicional transmissão no dial (AM/FM) com streaming, podcasts, aplicativos, redes sociais e inteligência artificial. O digital não o substituiu. Ampliou as formas de chegar aos ouvintes. E o mais importante: não mudou sua essência.
A pesquisa Audio Pulse 2026 do IBOPE mostra que o rádio alcança 77% da população nas 13 regiões metropolitanas pesquisadas e que 67% dos ouvintes confiam no meio para se manter informados.
Na televisão aberta, vivemos transformação semelhante. A TV digital já representou um salto importante, e a TV 3.0 traz novas experiências para o telespectador, com mais interatividade e integração com a internet, preservando a gratuidade e o amplo acesso.
Rádio e televisão também ajudam o Brasil a se conhecer e a ser conhecido. Jornalismo, documentários, novelas, séries, música, esportes e outras produções levam nossos sotaques, hábitos, histórias e criatividade para dentro e para fora do país.
Essa transformação ocorre enquanto a humanidade aprende a lidar com a inteligência artificial, uma tecnologia que avança em grande velocidade. Mal incorporamos uma ferramenta e já surgem novas aplicações e novos desafios. A IA pode organizar informações, apoiar pesquisas, transcrever, classificar dados e assumir tarefas operacionais, liberando profissionais para atividades que exigem mais análise, apuração e criação. Deve ser usada como ferramenta para ampliar a capacidade humana, não para substituí-la.
No rádio e na televisão, isso é especialmente visível. São meios construídos sobre voz, presença, interpretação, repertório, identidade e proximidade. Essa relação cotidiana com a audiência também mostra o limite que o público estabelece para o uso da IA. Quando a tecnologia é empregada em excesso, pasteuriza conteúdos, repete fórmulas, retira contexto ou apaga a expressão humana, a reação aparece. No dia a dia das emissoras, percebemos que a audiência aceita e valoriza a IA quando ela melhora processos e apoia a criação, mas rejeita seu uso como substituta do trabalho autoral de jornalistas, apresentadores, artistas e outros profissionais.
O público quer reconhecer autoria, experiência, sensibilidade e responsabilidade no conteúdo que recebe. Isso se torna ainda mais importante quando produções automatizadas reproduzem erros, desinformação ou materiais sem contexto.
No jornalismo, a responsabilidade é ainda maior. Num ambiente de hiperinformação e desinformação, é preciso saber de onde vem a informação, como foi produzida e quem responde pelo que é publicado. O jornalismo profissional apura, verifica, contextualiza e assume responsabilidade editorial.
Esse trabalho precisa ser sustentável também no ambiente digital. Produzir jornalismo, música, dramaturgia, documentários e outros conteúdos criativos exige profissionais, tecnologia e investimento. Quando esse conteúdo é usado por plataformas, mecanismos de busca ou sistemas de inteligência artificial para responder a usuários, gerar resumos ou treinar modelos, seu valor não desaparece.
É preciso assegurar o respeito aos direitos autorais e a remuneração pelo uso desses conteúdos. A inovação não pode se sustentar na apropriação gratuita do trabalho criativo e jornalístico de terceiros. Quem investe em reportagem, música, audiovisual e produção cultural precisa ter seus direitos reconhecidos e receber compensação justa quando seu conteúdo gera valor para outros negócios digitais.
A responsabilidade das grandes plataformas também precisa fazer parte dessa discussão. Redes sociais, buscadores e serviços de inteligência artificial influenciam o que circula e chega ao público. Transparência, proteção de direitos e responsabilidade precisam avançar sem impedir a inovação nem comprometer uma internet aberta.
Ataques, assédio e campanhas de desqualificação contra profissionais da imprensa atingem em especial mulheres jornalistas e integrantes de grupos historicamente minorizados. Além de violentar pessoas, essas ações afastam vozes do debate público e prejudicam o direito da sociedade a uma informação livre e plural.
Também por isso a educação midiática ganhou importância. Formar cidadãos capazes de identificar fontes confiáveis, reconhecer manipulações e usar novas tecnologias com senso crítico é uma necessidade da vida democrática.
O Dia Mundial do Jornalismo reúne mais de mil redações e organizações em diferentes países em torno dessas preocupações. No Brasil, entidades da comunicação, veículos, universidades e organizações da sociedade civil se somam à mobilização.
Rádio e televisão chegam a essa nova etapa com uma longa história de adaptação. Incorporaram tecnologias, ampliaram suas formas de distribuição e continuam buscando novos conhecimentos, modelos de negócio e parcerias. A inteligência artificial será parte desse caminho, desde que usada para fortalecer, e não esvaziar, a contribuição humana.
Os meios mudam. As formas de ouvir, assistir, buscar e compartilhar também mudam. Mas permanece a necessidade de jornalismo profissional, sustentável, plural e capaz de chegar a todos, feito por pessoas e apoiado pela tecnologia, não substituído por ela.