Pesquisa da USP identifica novas formas de inovação nas redações, enquanto representantes do setor discutem valorização da informação confiável, modelos de negócio e remuneração pelo uso de conteúdo jornalístico
A inteligência artificial pode abrir caminho para um novo ciclo de valorização do jornalismo profissional, ao ampliar a demanda por informações confiáveis, verificadas e atualizadas. Esse foi um dos principais pontos do webinário “IA no jornalismo: como as redações brasileiras estão se adaptando”, realizado na terça-feira (27) pelo Observatório da Imprensa e pelo grupo de pesquisa COM+, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). O encontro apresentou uma pesquisa inédita sobre a adoção da tecnologia nas redações brasileiras e reuniu pesquisadores e representantes de entidades jornalísticas para discutir inovação, sustentabilidade e novos modelos de negócio.
O debate destacou um paradoxo: a IA amplia a produtividade das redações e cria oportunidades para novos produtos, mas também ameaça a sustentabilidade econômica dos veículos ao utilizar conteúdos jornalísticos sem remuneração adequada.
Para o presidente-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech, a necessidade de informações qualificadas pode representar o início de um novo ciclo para o setor. “Estamos no limiar, no início, talvez de um renascimento da produção jornalística de qualidade”, afirmou.
A avaliação considera a importância da informação jornalística para os sistemas de IA, especialmente em consultas sobre produtos, serviços, saúde, economia e outros assuntos de interesse público. A apuração, a verificação dos fatos, a diversidade de fontes e a atualização das notícias tornam o jornalismo profissional uma fonte de alto valor para essas ferramentas.
Pesquisa identifica diferentes estratégias de inovação
A pesquisa apresentada pela professora Elizabeth Saad e pelo pesquisador João Pedro Malar, desenvolvida também com Eliseu Barreira Júnior, analisou a incorporação da inteligência artificial generativa em sete organizações: Grupo Globo, Folha de S.Paulo, UOL, Estadão, Aos Fatos, Núcleo Jornalismo e Agência Tatu.
O estudo, realizado a partir de entrevistas com executivos entre abril e maio de 2026, deu origem ao J-Core AI, modelo de análise das estratégias adotadas pelas empresas jornalísticas. A metodologia considera duas dimensões: o tipo de inovação, incremental ou disruptiva, e as estratégias de licenciamento de conteúdos para empresas de tecnologia.
Os pesquisadores identificaram quatro perfis possíveis: diversificadores de receita, disruptores de mercado, orquestradores estratégicos e desbravadores independentes.
Folha, Estadão e UOL foram classificados como diversificadores de receita, por combinarem ganhos de eficiência com acordos individuais de licenciamento. O Grupo Globo foi enquadrado entre os orquestradores estratégicos, com foco em produtividade e defesa de soluções setoriais. Aos Fatos, Núcleo Jornalismo e Agência Tatu foram classificados como desbravadores independentes, por priorizarem novos produtos e modelos de negócio.
Nenhuma das organizações analisadas foi enquadrada na categoria dos disruptores de mercado, caracterizada pela combinação de inovação disruptiva com acordos individuais de licenciamento.
Elizabeth Saad ressaltou o caráter inicial do modelo e a necessidade de ampliar a pesquisa para outras organizações. Também alertou para a dependência tecnológica das redações em relação aos grandes fornecedores de sistemas de IA e defendeu investimentos capazes de ampliar a autonomia do setor.
Novos produtos e fontes de receita
A pesquisa identificou aplicações práticas da inteligência artificial em empresas de diferentes portes. No UOL, a tecnologia apoia atividades como transcrição, tradução e produção de títulos. A Folha desenvolveu chatbots temáticos, enquanto o Estadão criou a assistente virtual Leia e investe na digitalização de seu acervo.
Entre os nativos digitais, o Núcleo Jornalismo utiliza IA para acelerar o desenvolvimento de sites e produtos. A Aos Fatos criou o Escriba, serviço de transcrição com geração de receita. A Agência Tatu desenvolve soluções para outras organizações, incluindo alertas meteorológicos destinados a comunidades da periferia de São Paulo.
“Nunca foi tão fácil pros veículos jornalísticos experimentarem”, afirmou João Pedro Malar, ao destacar a redução dos custos e das barreiras tecnológicas para desenvolver novos produtos.
Outro campo de oportunidades está nos acervos jornalísticos. A inteligência artificial permite explorar arquivos históricos, relacionar informações e desenvolver serviços a partir de conteúdos acumulados ao longo de décadas.
Remuneração e soluções coletivas
A sustentabilidade econômica ocupou parte importante do debate. Os participantes defenderam mecanismos capazes de assegurar remuneração pelo uso de conteúdos jornalísticos por sistemas de inteligência artificial.
Entre as alternativas discutidas estão acordos coletivos, regulação, medidas judiciais e soluções tecnológicas de licenciamento e micropagamentos por acesso automatizado.
A ANJ participa de iniciativas internacionais como a SPUR e acompanha o desenvolvimento do Really Simple Licensing (RSL), sistema voltado ao licenciamento e à remuneração de conteúdos digitais. A entidade também avalia estratégias jurídicas coletivas para a proteção dos direitos dos produtores de informação.
A diretora de Relações Institucionais da Associação de Jornalismo Digital (Ajor), Carla Egydio, destacou a importância de soluções coletivas, sobretudo para pequenos e médios veículos, com menor capacidade de negociação individual.
Ela também alertou para os efeitos dos acordos sigilosos entre plataformas de tecnologia e grandes empresas jornalísticas, além dos riscos associados à redução do tráfego para os sites de notícias.
A entrega de respostas diretamente pelas ferramentas de IA pode afastar o público dos veículos responsáveis pela produção das informações, comprometendo tanto as receitas quanto a relação de confiança com as marcas jornalísticas.
Carla defendeu a participação das empresas, associações, universidades e do poder público na construção de alternativas capazes de atender ao conjunto do setor.
O futuro do jornalismo
O encontro apontou oportunidades para o jornalismo profissional, com ganhos de produtividade, desenvolvimento de produtos, exploração de acervos e novas possibilidades de receita. Ao mesmo tempo, evidenciou a necessidade de enfrentar a concentração tecnológica e assegurar condições econômicas para a produção de informação original.
A discussão reuniu Elizabeth Saad e João Pedro Malar, do grupo COM+, Marcelo Rech, da ANJ, e Carla Egydio, da Ajor, com mediação de Denize Bacoccina, editora do Observatório da Imprensa.
O webinário foi transmitido pelo canal do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor) e está disponível no YouTube.
Assista ao webinário: https://www.youtube.com/watch?v=qbifRBqixeE