Por Guilherme Costa e Leonardo Mancini, coordenadores da graduação em Jornalismo da ESPM em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Nunca foi tão fácil fazer circular um conteúdo. Qualquer pessoa com um celular pode registrar um acidente, comentar uma decisão do governo ou divulgar um estudo científico para milhares de seguidores. Talvez daí nasça a sensação, falsa, de que qualquer um é repórter e de qualquer publicação é jornalismo.

Noticiar exige método. É o resultado de um processo rigoroso que se inicia na apuração, e envolve ouvir fontes com interesses diferentes, checar dados, separar fato de opinião, contextualizar e decidir o que precisa, ou não, ser publicado. Em tempos de infodemias variadas, sabemos que o conteúdo jornalístico bem elaborado pode salvar vidas. Igualmente, a desinformação ganha novas formas a cada eleição (ou escândalo político), e enfrentá-la exige uma nova postura profissional.

Atualmente, a descredibilização da imprensa passou a ser usada como estratégia. Em meio ao caos informacional, em quem o público deveria confiar? Cabe ao jornalismo responder a esse desafio sendo ainda mais rigoroso e transparente. Precisamos mostrar a importância de nosso trabalho, da informação de qualidade, para a vida dos leitores, ao mesmo tempo em que devemos explicar melhor os processos de apuração e sermos mais honestos, inclusive, com nossos erros.

A inteligência artificial, nesse sentido, se apresenta tanto como desafio quanto oportunidade. Uma leitura apressada poderia nos levar à conclusão de que essa tecnologia poderia substituir os jornalistas. De fato, algumas etapas do trabalho jornalístico podem ser automatizadas e realizadas por máquina, mas isso não é necessariamente negativo. No campo do jornalismo profissional, se estudada e submetida ao método, a IA se torna importante ferramenta para acelerar e tornar mais robusto o processo de apuração e checagem, sem retirar do jornalista a autoria e, consequentemente, a responsabilidade pela decisão editorial.

E é por isso que a formação do jornalista é tão importante. É nesse momento que o aspirante a jornalista profissional consegue, sem pressões institucionais ou mercadológicas, desenvolver suas técnicas, aprimorar seu repertório e refletir, criticamente, a respeito das questões éticas, sociais, culturais, científicas e políticas da contemporaneidade. Somente por esse processo, assim acreditamos, é possível ter uma imprensa verdadeiramente voltada para o bem comum, a justiça social e interesse público, requisitos mínimos e essenciais de uma democracia.

Por outro lado, é fundamental que as escolas de jornalismo estejam atentas e próximas das redações, assessorias e veículos independentes. É através dessa troca que a academia se atualiza e oferece aos profissionais um espaço para rever práticas diante dos desafios tecnológicos e sociais atuais. Em outras palavras, o mercado leva à sala de aula os problemas reais do cotidiano e a escola de Jornalismo devolve pesquisa, reflexão e um tempo de análise que o ritmo do fechamento raramente permite.

Essa troca é também uma aposta na sobrevivência do jornalismo. A profissão enfrenta a queda das receitas tradicionais, a dependência das plataformas e pressões políticas que vão do assédio judicial ao ataque direto a repórteres. Nenhum desses problemas se resolve apenas dentro das redações, nem apenas na academia. É no encontro entre as duas que se pode experimentar novos formatos, modelos de financiamento e formas de relação com o público. Formar jornalistas é também formar quem vai encontrar as condições para que o jornalismo continue existindo.