Sete associações de imprensa das Américas, entre elas a Associação Nacional de Jornais (ANJ), aderiram à coalizão internacional Standards for Publisher Usage Rights (SPUR), criada para proteger os direitos dos produtores de conteúdo jornalístico diante do uso de suas publicações por sistemas de inteligência artificial (IA). A adesão foi anunciada nesta terça-feira, 13 de outubro, em Londres, como parte da maior expansão da coalizão desde sua criação, em fevereiro de 2026.

Além da ANJ, integram a iniciativa a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), a Associação de Entidades Jornalísticas Argentinas (ADEPA), a Associação Colombiana de Meios de Informação (AMI), a Associação Nacional da Imprensa (ANP), do Chile, a Alianza de Medios MX, do México, e o Conselho da Imprensa Peruana (CPP).

A participação das entidades das Américas amplia a articulação internacional em defesa da sustentabilidade econômica do jornalismo na região, diante dos desafios impostos pelo avanço da inteligência artificial. A iniciativa busca fortalecer a atuação conjunta das empresas jornalísticas para proteger seus direitos autorais, acompanhar o uso de seus conteúdos por sistemas de IA e assegurar uma remuneração justa por esse uso. A coalizão também pretende estabelecer regras comuns para a relação entre os produtores de informação e as plataformas tecnológicas.

As sete associações integram uma ampla rede de representação do jornalismo nas Américas, com milhares de veículos de comunicação, empresas jornalísticas e marcas editoriais. Essa dimensão se amplia ao considerar os diferentes jornais, portais e produtos digitais mantidos pelos grupos associados. A adesão à SPUR fortalece a articulação regional em defesa da sustentabilidade econômica do jornalismo, da proteção dos direitos autorais e da remuneração justa pelo uso de conteúdos jornalísticos por sistemas de inteligência artificial.

A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), por exemplo, reúne cerca de 1.300 publicações do continente, enquanto a ANJ conta com mais de 100 empresas associadas no Brasil. Entre os veículos brasileiros estão O Globo, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, GZH, Gazeta do Povo, O POVO, Jornal do Commercio, do Recife, Correio Braziliense, A Gazeta, O Popular, A Tarde e O Liberal, entre outros, muitos deles com a necessária prática do jornalismo hiperlocal, local e regional.

Na Argentina, a Associação de Entidades Jornalísticas Argentinas (ADEPA) reúne cerca de 180 empresas jornalísticas, responsáveis por mais de 200 publicações impressas e digitais. Entre elas estão Clarín, La Nación, La Voz del Interior, La Gaceta, Los Andes e Río Negro. No Chile, a Associação Nacional da Imprensa (ANP) representa mais de 60 publicações, entre elas El Mercurio, La Tercera, La Segunda, Diario Financiero, El Mostrador, The Clinic e El Mercurio de Valparaíso.

Na Colômbia, a Associação Colombiana de Meios de Informação (AMI) reúne jornais, portais digitais e outros veículos, entre eles El Tiempo, El Espectador, El Colombiano, El Heraldo, El País, El Universal, La República, Portafolio, Pulzo e Vanguardia.

No México, a Alianza de Medios MX reúne organizações e empresas jornalísticas como El Universal, Proceso, El Heraldo de México, El Economista, Organización Editorial Mexicana, Vanguardia, Debate, Publimetro, La Silla Rota e Político MX. No Peru, o Conselho da Imprensa Peruana (CPP) reúne veículos nacionais, regionais e digitais, com representantes de El Comercio, La República, Infobae, RPP, Canal N e SolTV em sua direção.

A presença dessas organizações amplia a participação do jornalismo das Américas na definição de padrões internacionais para o uso de conteúdos por empresas de inteligência artificial. A articulação reúne veículos de diferentes portes e regiões, com o objetivo de fortalecer sua capacidade de negociação e contribuir para a construção de um mercado mais justo para a produção jornalística.

Coalizão reúne mais de 80 integrantes

A expansão anunciada pela SPUR reúne 44 novos integrantes, entre associações, empresas jornalísticas e outras organizações. Com as adesões, a coalizão ultrapassa 80 membros, distribuídos por mais de 20 países. Entre os novos participantes estão The New York Times, Agence France-Presse (AFP), The Atlantic, The Observer e The Economist. A coalizão foi fundada por BBC, Financial Times, Guardian Media Group, Mediahuis, Sky News, Telegraph Media Group, Associated Press (AP) e CMA Media.

Regras para o uso de conteúdos jornalísticos por IA

A SPUR trabalha para estabelecer um mercado justo para o uso de conteúdos jornalísticos por sistemas de inteligência artificial. A iniciativa busca desenvolver padrões técnicos e comerciais capazes de assegurar transparência, respeito aos direitos autorais e remuneração aos produtores de informação.

O objetivo é estabelecer regras claras para a relação entre empresas jornalísticas e plataformas tecnológicas, com mecanismos de licenciamento para o uso de conteúdos protegidos por direitos autorais.

A coalizão também desenvolve ferramentas para permitir aos veículos acompanhar o uso de suas publicações por modelos de IA, identificar utilizações sem autorização e reunir provas de possíveis violações.

Entre as iniciativas está o Content Telemetry Standard, padrão técnico lançado pela SPUR para registrar como agentes e desenvolvedores de modelos de inteligência artificial utilizam conteúdos jornalísticos e informar esse uso aos respectivos titulares dos direitos.

A proposta estabelece uma linguagem comum para o registro e o compartilhamento dessas informações, criando condições para a fiscalização, a negociação de licenças e a remuneração pelo uso dos conteúdos.

A coalizão trabalha agora com parceiros do setor para implementar esse padrão e desenvolver ferramentas capazes de facilitar sua adoção pelas empresas de inteligência artificial.

Proteção dos direitos autorais e futuro do jornalismo

“A proteção da propriedade intelectual e o avanço tecnológico podem e devem coexistir”, afirmou Rebecca Grossman-Cohen, vice-presidente sênior de Parcerias Estratégicas e Operações Executivas do The New York Times.

Segundo ela, o jornalismo de qualidade é fundamental para a saúde das democracias e para o funcionamento dos próprios produtos e serviços de inteligência artificial. “Temos orgulho de trabalhar com a SPUR para desenvolver padrões sólidos e mecanismos de proteção dos conteúdos protegidos por direitos autorais, sem imposições unilaterais das plataformas tecnológicas”, acrescentou.

David Buttle, cofundador e porta-voz da SPUR, destacou a importância da mobilização internacional das organizações jornalísticas diante das transformações provocadas pela inteligência artificial. “Não podemos simplesmente esperar pelo melhor quando se trata das empresas de inteligência artificial e do futuro das publicações jornalísticas. As organizações de mídia de todo o mundo precisam se unir para proteger a si mesmas, umas às outras e o futuro do jornalismo”, afirmou.

Buttle ressaltou o crescimento da mobilização para construir uma economia da informação mais justa e sustentável. Segundo ele, embora o jornalismo de qualidade contribua para a formação dos modelos de IA, os produtores de conteúdo ainda não dispõem de mecanismos capazes de assegurar uma remuneração justa pelo trabalho realizado. “Em muitos casos, sua produção está sendo literalmente roubada”, afirmou.

O porta-voz também defendeu a criação de regras comuns para preservar os princípios e a integridade do jornalismo original diante das mudanças no mercado global de comunicação.

Próximas etapas

Com a ampliação de seus integrantes, a SPUR iniciou grupos de trabalho com representantes de diferentes setores do mercado para aperfeiçoar o Content Telemetry Standard e definir sua aplicação às tecnologias atuais e futuras de inteligência artificial.

A coalizão, sem fins lucrativos e financiada por seus integrantes, busca desenvolver condições técnicas e comerciais para assegurar aos titulares de direitos autorais o controle e o acompanhamento do uso de seus conteúdos por aplicações de IA generativa.

Mais informações: www.spurcoalition.org